Michael
Dizer que o filme Michael é apenas uma cinebiografia é reduzir a magnitude do que foi entregue nas telas. Como fã do Michael Jackson desde os meus 8 anos, alguém que cresceu obcecada por cada passo, cada nota e cada detalhe da vida desse homem, eu entrei no cinema com uma expectativa altíssima, e saí hipnotizada.
Para quem cresceu tentando imitar o moonwalk no corredor de casa, o filme é um abraço. Ele valida o nosso carinho e humaniza o michael sem derrubá-lo do pedestal de talento que ele conquistou por mérito próprio. É uma obra que não pede desculpas por ser grandiosa. Afinal, Michael Jackson nunca foi um artista de meias medidas. É um filme incrível, produzido com um comprometimento raríssimo de toda a equipe. Ver objetos originais em cena e locações reais traz uma autenticidade que arrepia( vlw madonna). As salas de cinema cheias são a prova viva de que o mundo ainda clama pelo Rei do Pop. Quem diz que não gostou, honestamente, precisa rever seus critérios, aqui, a excelência técnica é inegável.
A atuação de Jaafar Jackson é algo que beira o espiritual. Não é apenas um sobrinho interpretando o tio; é alguém que capturou a essência, o olhar e a vulnerabilidade de Michael. Quando ele replica os clipes e os gestos icônicos, o nível de precisão é assustador. Jaafar nos transporta de volta, faz a gente sentir que ele está ali. O figurino, a fotografia e as atuações de apoio são de altíssimo nível, dignas de todas as indicações ao Oscar possíveis. O filme se propõe a ser uma homenagem, um espetáculo visual e emocional que nos transporta para nossa própria história com o artista.
No entanto, entendo as discussões acaloradas que o filme despertou. É preciso ter racionalidade: estamos falando de um FILME, de uma FICÇÃO baseada em fatos. Pelo amor de Deus, é impossível resumir décadas de uma vida complexa, genial e conturbada em pouco mais de duas horas. Quem entra querendo ver cada pedaço da vida do cara detalhado por minuto, deveria procurar um documentário de dez episódios, não uma produção cinematográfica de cinema. O objetivo aqui é mostrar a jornada do artista, a ascensão do gênio, e não servir como uma enciclopédia forense. Se o filme tivesse 4 horas, eu teria assistido sem piscar, mas entendo as escolhas de edição.
Claro que, como fã, senti faltas. Onde estava Diana Ross? Saber que ela foi cortada na edição final dói, pois sabemos a importância dela na vida dele. A ausência de irmãos como Randy Jackson e o pouco destaque para Janet, mostrada apenas como a irmã que estava em casa, ignorando sua carreira gigante, são pontos que deixam o enredo um pouco raso no núcleo familiar. A ordem cronológica dos álbuns e o processo criativo, que foi tão rico, poderiam ter tido mais tempo de tela. Mas, novamente, são escolhas de roteiro. O filme foca na visão de Michael sobre o mundo, e talvez essa tenha sido a intenção da família desde o início: mostrar o Michael ser humano sob sua própria perspectiva.
A crítica especializada, como sempre, parece ter assistido a outro filme. Muitos jornalistas e influencers maldosos atacaram a obra não pelo seu valor técnico, mas por ela não ser o "tribunal" que eles queriam. Estão furiosos porque o filme não focou em temas caluniosos ou nas polêmicas que a mídia usou para manchar a imagem do Michael por décadas. Eles queriam sangue, queriam o "pesado", mas o filme escolheu o brilho, a música e a humanidade. Já deu dessa frescura de querer escrutinar a vida privada dele o tempo todo. Deixem o cara descansar em paz e deixem os fãs curtirem o artista incomparável que ele é.
Alguns dizem que o filme é "limpinho" demais, que escondeu abusos familiares ou brigas com gravadoras. Mas sejamos realistas: nunca vai existir uma cinebiografia autorizada pela família que exponha todas as feridas abertas de forma crua. O que recebemos foi uma celebração certeira. Mesmo com um roteiro que peca em alguns detalhes históricos e que poderia ter aprofundado a relação traumática com o pai, o saldo é absurdamente positivo. O filme foi feito para quem ama a arte, para quem se emociona com a batida de Billie Jean e para quem entende que Michael Jackson foi um homem que, apesar de todas as sombras projetadas sobre ele, só queria curar o mundo através do seu talento.
A trilha sonora, como era de se esperar, é uma personagem à parte. A mixagem de som nas cenas de ensaio nos dá a sensação de estar dentro do estúdio, ouvindo o estalar de dedos e as respirações ofegantes entre um passo e outro. É ali que entendemos o perfeccionismo quase doentio de Michael, a busca pela nota perfeita que muitas vezes o isolava do mundo. O filme não precisa de vilões caricatos quando mostra que o maior desafio de Michael era superar sua própria genialidade anterior( e o vagabundo do pai dele obv).
Infelizmente, o filme não corresponde 100% à realidade da época em termos de árvore genealógica ou precisão discográfica, mas corresponde 100% ao sentimento de ser fã. Ele me fez chorar e me fez lembrar por que Michael é eterno.
O roteiro acerta ao mostrar o contraste entre a timidez quase paralisante fora do palco e a explosão de confiança assim que os holofotes se acendem.
As cenas que retratam o período de Thriller mostram que, no topo do mundo, o ar é rarefeito. O isolamento é o preço da onipresença.
O roteiro foi raso em fatos para alguns, foi profundo em alma para outros. É uma obra feita para os fãs, para celebrar o legado e para mostrar que, contra fatos (e músicas perfeitas), não há argumentos. Michael merece ser visto, revisto e aplaudido de pé. É o Oscar do coração dos fãs, e isso vale muito mais do que qualquer crítica azeda da mídia.