The Hours
“you can’t have peace by avoiding life”
“As Horas” é um filme que fala sobre angústias, frustrações, inquietações e, principalmente, sobre a vida. O filme traz consigo a história de três mulheres únicas e peculiares, mas que ao mesmo tempo, compartilham muitos sentimentos em comum e em contextos e épocas diferentes.
Virginia Woolf, interpretada pela fabulosa Nicole Kidman (em que ganhou o Oscar por esse papel), nos transmite a frustração que é a sensação de estar vivendo uma vida que não à pertence. Ao se sentir encurralada pela não valorização que aqueles ao seu redor tem pela vida (“por que um personagem do seu conto tem que morrer?” “para que o resto enxergue o valor da própria vida”), e por um sentimento de estar sempre perdida, de não ver propósito em sua rotina de vida, e principalmente, de não saber o que há por vir. Acho que isso é o que “As horas” são sobre, a insatisfação com a atual situação em que nos encontramos, muitas vezes sem saber qual o motivo dessa sensação, e sobre se frustrar ao não enxergar uma melhora, uma escapatória. e com tudo isso, vem o sentimento de vazio, de apatia, de depressão.
Clarissa Vaughan, interpreta pela brilhante Meryl Streep, vivendo no contemporâneo, é uma mulher na casa dos seus 50 anos, que vive em função de cuidar de sua paixão, Richard, um homem portador de AIDS, nos seus estágios finais de vida. Apesar de ter moldado sua vida em prol do amigo, afetando a si mesma e aos ao seu redor, ela gosta dos momentos que possui com o tal, no entanto, é notório que esse é o único propósito da vida dessa mulher, o resto é apenas resto, tendo relações de “falso conforto” com as outras pessoas. Acho que Clarissa traz o sentimento de estar “vivendo por um propósito”, e no momento que esse propósito não existe mais, você se sente perdido, sem perspectiva nenhuma de como será o futuro, como se a vida fosse um “checklist”, e quando todas as tarefas estão, não necessariamente concluídas, mas não estão mais lá, vem a terrível sensação de estar alheio a tudo e todos.
E finalmente, Laura Brown, interpretada pela surreal Julianne Moore que, na minha opinião, foi a melhor performance do filme, é uma mulher que vive no começo dos anos 50, tem uma família, uma casa própria, e tudo o que se precisa para ter uma “boa vida”. Porém, algo a incomoda, talvez a sensação de estar vivendo uma “vida de mentira”, por não ser o que no fundo ela realmente deseja, a fazendo se sentir sufocada por não encontrar prazer e felicidade no cotidiano em que vive. Com isso, ela sente que se não fizer algo, sua vida não terá um rumo diferente, e continuará vivendo essa insuportável realidade que se encontra. No entanto, depois de considerar tirar a própria vida, ela resolve continuar vivendo e tomar outra decisão, que é ainda mais socialmente condenável do que o suicídio. Percebi na Laura o sentimento de insatisfação com a vida, e que simplesmente não existe nada a ser feito, nada a ser mudado, nos levando a crer que estamos gastando a única vida que teremos com o que os outros querem que sejamos, e consequentemente, nos faz acreditar que é o que queremos. Senti que essa foi a história mais complexa ao meu ver, sinto que não escrevi tudo o que queria sobre ela, mas fica por isso.
No todo, é uma obra fácil de assistir, porém difícil de entender. Acho que ela fala principalmente sobre a cobrança que existe sobre certas posições femininas, sobre o que ela deve ser, sobre o que deve ser rir e como deve agir. Fez isso de uma forma nada expositiva e super sofisticada. E claro, como citado anteriormente, também fala sobre a vida, que se você parar mais de 5 minutos pra pensar, é algo assustador, mas ao mesmo tempo, prazeroso. Me deixou bastante impactado, recomendo a todos assistirem!
“always the love, always the hours”