
''O Cinema existe para perturbar o espírito'' -Isabelle Huppert E Gosto de uns quadrinhos também.

Engraçado como mesmo a adaptação mais destoante da obra original consegue ser a melhor em meio a um universo medíocre. Eu já devia ter reassistido esse filme a um bom tempo, mas antes de tomar essa decisão, eu me tomei por vencido em ler os quadrinhos dos Guardiões da Galáxia em primeiro lugar, e tentar mesclar uma review que equilibre o que eu gostei de ambas as mídias, e como os filmes funcionam isoladamente como obras no audiovisual, mas não como adaptação, e claro, como infelizmente se tornou um medidor cômico que posteriormente foi padronizado em todas as obras do MCU. Primeiramente, eu preciso citar o quanto eu apreciei a leitura dos quadrinhos dessa equipe, foram 25 edições ao todo, com histórias isoladas que se passavam em diversos eventos da editora, desde Invasão Secreta à até o Reino dos Reis envolvendo os Inumanos, e como em 25 edições, de 32 páginas cada, a dupla Lanning e Abnett conseguiram criar algo coerente e de fácil entendimento, mesmo que cada personagem tenha sido apresentado em quadrinhos anteriores, como o próprio Peter Quill que foi introduzido em uma fase solo do Thanos, ou o Drax, que foi apresentado nos quadrinhos do Homem de Ferro, mesmo que você não tenha conhecimento algum sobre, a leitura dos Guardiões da Galáxia (2008) em si será autoexplicativa o bastante para que você não se sinta perdido, logicamente é preferível que você possua conhecimento prévio antes, mas mesmo a pessoa mais leiga conseguirá aproveitar essa fase. E uma das suas maiores forças é justamente em quão bem organizada a narrativa se encontra, no quão orgânica é a dinâmica em equipe dos personagens, e no quanto você percebe a história caminhar para algo, diferentemente de quadrinhos como os Jovens Titãs em que eu constantemente me sentia lendo, lendo e chegando em lugar nenhum, deixando nítido o quanto a editora pensa a longo prazo e quantitativamente ao invés de qualitativamente, os quadrinhos dos Guardiões são diretos, eles irão explorar essa equipe literalmente impedindo o colapso do universo, e de bônus impedindo o colapso de suas próprias relações, um simbolismo inacreditavelmente lindo. Eu simplesmente amo a relação de cada personagem nessa fase, como Drax mantém sua relação familiar com a Phyla-Vell, como o Adam Warlock e a Gamora possuem uma relação já em desenvolvimento desde antes, e como principalmente a figura do Quill é totalmente diferente do que foi popularizado pelos filmes, de como possui uma liderança ativa e carismática sem perder seu senso de humor, um problema que me afetou drásticamente nessa revisitada ao filme, e como a presença da Mantis é necessária na construção de cada Guardião, enfim eu poderia criar um texto totalmente a parte sobre o que eu penso em relação a obra original, [mas deixarei o link com minha review no League of Comic Geeks, onde pude me aprofundar melhor sobre.](https://leagueofcomicgeeks.com/profile/dravcyk/reviews/19157275/guardians-of-the-galaxy-25) Sem mais enrolações, falando exclusivamente do filme como um todo, ele é um exemplo perfeito de como não se adaptar, mas de como criar algo próprio em torno disso, visto que, James Gunn pega tudo o que nos quadrinhos possui significado próprio e transforma em duas opções: referência vazia ou apoio emocional a determinado personagem. Cosmo nos quadrinhos é um chefe de segurança da base de operações da equipe, e muito do seu carisma gira em torno de ser literalmente um cachorro soviético que foi mandado ao espaço durante a Guerra Fria, sobrevivendo milagrosamente, aprendendo a falar e a praticar telecinese, é idiota e brega, duas características que também resumem o filme, e por talvez um possível medo da recepção ou limitação narrativa imposta pelos próprios produtores, no longa, ele é apenas visto como referência na cena do Colecionador, e isso me fez refletir sobre como a Marvel no cinema se apropria esteticamente do que acha agradável/chamativo e descarta qualquer coisa que possa ter potencial narrativo maior de ser trabalhado de uma forma diferente. O Apoio emocional do qual eu havia falado possuem dois exemplos, mas usarei o Yondu por ser o exemplo ''bom'', nos quadrinhos, o personagem não é nada mais do que apenas um dos vários integrantes a terem passado pelos Guardiões da Galáxia, que nos quadrinhos, são muito mais referenciados pelo nome e pela quantidade de equipes diferentes que assumiram esse nome, Yondu fez parte da segunda equipe dos anos 90 e apenas possuía um arco e uma boa pontaria, James Gunn pegou específicamente um momento pontual na fase de 2008 em que a Mantis controla telepaticamente uma flecha do Yondu e repaginou totalmente o personagem com base nisso, atuando mais como essa figura paterna problemática, e isso por si só demonstra um dos porquês do Gunn ser um bom diretor, essa habilidade de recriar algo novo em torno do original e conseguir extrair algo diferente e mais profundo, e isso é algo que eu aprecio bastante. Apesar disso, a Gamora no filme assume esse exemplo ''ruim'', uma posição que seria equivalente a da Mantis, seja como interesse romântico, seja como intermediadora da equipe, e isso demonstra também essa necessidade de simplificação da obra, de reduzir a equipe a apenas 5 integrantes, ao contrário dos 9 originalmente, é compreensível e poderíamos adentrar na necessidade de adaptações em se moldarem para conseguirem transmitir algo diferente do que apenas a recriação gratuita do que já havia sido feito, e como a visão pessoal de cada diretor influência nisso, mas deixarei para outro momento. Muita das qualidades da obra se dão pela construção do protagonismo em torno do Peter Quill e da sua quase eterna fuga de ambientes familiares, culminando no final da obra, com a cena da jóia sendo totalmente a simbolização disso, com toda a sua metáfora sobre como compartilhar suas dores em conjunto se torna o fator primário da relação de cada um, gosto do tom humorístico aqui, apesar de sentir pedante em alguns momentos, o fato de usarem da dança como elemento de extrema importância ajuda nessa noção de ''idiota e bobo'' que eu havia comentado antes, não é absurdo, é apenas coerente com o que estava sendo construído até então, mesmo que, eu sinta aqui um problema que sempre sinto em filmes do Gunn, esse desequilíbrio do humor com o drama, como ambos tentam se atropelar constantemente em diversos momentos de cada obra e como se tornou cada vez mais nítido, com talvez o Superman sendo esse melhor exemplo. Enfim, sendo justo, eu não me incomodo verdadeiramente com as mudanças feitas pelo Gunn, mas admito que o fator replay do longa se torna cada vez menos digerível pelo seu ritmo e desequilíbrio de tom dramático/humorístico, e como aparenta ser uma obra muito dependente de musicas pop dos anos 80 sem nunca apostar de fato em uma trilha sonora própria e marcante, apesar disso, e do seu péssimo legado em permitir que novos filmes desse universo se pautassem quase que exclusivamente no humor, eu ainda gosto e aprecio esse primeiro filme enquanto obra distinta de seu material base.

> "Toda a minha vida senti como estando aqui e em outro lugar ao mesmo tempo." Meu primeiro contato com uma obra do Kieślowski e estou absorto pelo o que acabei de ver, é magnífico a forma como o diretor transita entre sonhos e pesadelos, entre o fim prematuro de uma e o começo de algo grande em relação a outra, inclusive, senti que o filme como um todo dialoga bastante com o Persona do Bergman, porém, ao contrário da visão ''pessimista'' sobre quebra e busca do eu originário proposto por Bergman, em Véronique é muito mais literal e de se permitir sentir em absoluto tudo. Existe uma grandiosidade inicial que se relaciona bastante com a Ópera, e que ao decorrer do longa vai se fragmentando em partes menores e dando maior espaço a um estudo total de personagem, Véronique e Weronika, duas pessoas distintas e distantes, da França a Polônia, e ainda sim, estão conectadas de uma forma que cria essa desconfiança e dúvida sobre as suas respectivas individualidades. Achei corajoso a mudança abrupta logo após os primeiros 30 minutos da obra, lentamente você tende a se acostumar com um respectivo cenário, personagens e atitudes, pra que tudo isso vire do avesso, e o filme brinca metaforicamente com isso, enquanto que você é levado junto nessa espiral confusa com as personagens, é algo gradual mas que alcança o seu ápice e nos deixa com uma confusão maior e mais instigante. Eu simplesmente adorei a forma como o diretor filma os corpos aqui, existe um cuidado em retratar uma beleza que remonte a essa contemplação clássica-grega, ao mesmo tempo que busca não cair demais em idealizações e romantizações, e tudo isso se mescla perfeitamente com as mudanças na sua fotografia com os filtros verdes e laranjas, que constantemente misturam-se entre si, acho fascinante como o autor não se limita em relação a funcionalidade das cores no audiovisual, o laranja representando muito mais do que apenas apego, nostalgia e reconforto, ele também pode ser ''corrompido'' pelo frieza distante do verde, e ambos assumirem as funções do outrem, criando algo próprio dentro disso, ou anulando um ao outro, vai da forma como você se sente em relação a isso. Um detalhe que eu gosto e me peguei pensando constantemente é como a representação masculina é muito em partes uma visão própria do diretor, e mais específica ainda sobre como cada personagem lida com essas diferentes representações peculiares, haverá o fetichista, o apaixonado, o observador, o pai, cada um ocupando essas funções específicas naquele universo que vemos sob os olhos das protagonistas, e uma cena que me pegou de surpresa foi justamente sobre o tarado em Cracóvia, como a cena consegue ser tão rápida e ao mesmo tempo desconfortável, demonstrando essa hiperexposição exaustiva de Weronika com o masculino rondando em volta de si, de como tende a se viciar em relações líquidas como resposta a essa exposição excessiva. E tudo isso se contradiz com Véronique, que tende a não se sentir em completo conforto em assumir uma posição equivalente, e como a figura mais instigante que surge em sua vida sendo talvez o maior clímax da mesma, essa busca pelo desconhecido que soa belo, confortável e identificável, não atoa temos poucos momentos reais entre Alexandre e Véronique mas sua relação se estende muito mais do que apenas pela suas respectivas presenças físicas, ambos se sentem sozinhos de maneiras indescritíveis. Enfim, sinto que ainda há muito sobre o que falar dessa obra e muito sobre o que estudar no método como Krzysztof Kieślowski trabalha seus personagens e seus respectivos mundos, e essa primeira experiência com uma obra do mesmo me fez criar um carinho imediato, algo que eu não havia sentido desde o David Lynch.

A potência do cinema enquanto arte não se dá unicamente pelo fator narrativo e esse curta expressa muito bem o porquê em relação a isso. Tudo que temos aqui se dá pelo simples, por uma câmera fixa, um caminho limitado e claustrofóbico, e a mais bela e genuína jornada de um ser inanimado, que transporta diariamente tanto sonhos, quanto decepções, com a locomotiva sendo justamente essa representação poética da nossa resiliência, dessa permanência quase bruta, me fascina o fato de que, mais de 100 anos após essa obra, e o mesmo objeto inanimado continua dia após dia, no limiar entre o existir e o não existir, nessa dança constante entre propósito e não propósito, visto que, um trem existe apenas com um único propósito, e caso isso seja retirado de si, a sua existência entra em questionamento, se não é útil, se torna um fantasma, descartável e apenas uma memória do que já foi, das vidas que já transportou, a sinapse da civilização humana, talvez eu seja estranho por sentir uma melancolia por estruturas/objetos abandonados. Uma simples e eficaz metáfora sobre a consciência humana, a melhor representação do nosso cérebro enquanto estrutura prática do nosso cotidiano, e uma eterna memória de como nossa vida é literalmente passageira.

"Ei, o que é isso?" "São os batimentos do coração do Godzilla." Eu nunca tinha visto a Mothra dormir tanto na franquia antes