Soul
2020 foi sem dúvida um ano difícil para todos nós. Presos num único espaço incapazes de progredir com a nossa vida, os nossos sonhos colocados numa lista de espera, a incerteza avassaladora de como será tudo depois da pandemia, o sermos incapazes de estar com as pessoas que mais amamos, o perguntarmo-nos regularmente qual o nosso propósito na vida ... "Soul" é o filme que todos precisamos neste momento.
"Soul" conta a história de Joe Gardner, um professor de música que se encontra insatisfeito com a sua vida. Joe sonha ser um músico de jazz, e depois de uma audição onde consegue impressionar toda a gente, ganha um lugar na banda de Dorothea Williams, uma grande artista de jazz.
No entanto, um acidente faz com que a alma de Joe se separe do seu corpo, caminhando assim para o Grande Além.
Convencido que não é ainda a sua hora de morrer, Joe é encaminhado para o Seminário Tu, um centro no qual as almas desenvolvem-se e ganham paixões e traços de personalidade antes de nascerem.
Joe deve trabalhar ao lado de 22 (uma alma com uma visão obscura da vida depois de ter ficado presa durante anos no Seminário Tu) para encontrar o caminho de volta ao seu corpo e começar um novo capítulo na sua vida, enquanto 22 precisa de ser convencida a não desistir da vida e ir para a Terra.
Jamie Foxx, que dá voz a Joe Gardner, dá-nos uma performance extraordinária, cheia de paixão e humanidade. Para complementar, temos a incrível Tina Fey que dá voz a 22. É uma personagem com um arco de história incrível e muito comovente. 22 consegue dar-nos um timing cómico incrível cheio de euforia e segundos depois fazer-nos entrar numa melancolia profunda.
A química de Foxx e Fey é, na minha opinião, diferente de todas as duplas que a Pixar já nos ofereceu.
No que diz respeito à dinâmica entre personagens quero enaltecer também a cena entre Joe e a sua mãe, dobrada por Phylicia Rashad, cena essa extremamente forte e comovente.
Angela Basset está também de parabéns pela dobragem da personagem Dorothea Williams, que sempre que aparece no ecrã consegue roubar os olhares do público.
Pete Docter é, para mim, dos melhores diretores da Pixar. Deu-nos grandes obras como "Monstros e Companhia" , "Up Altamente" e "Divertidamente", histórias poderosas alimentadas por uma imaginação incrível.
Os filmes de Pete Docter são o melhor exemplo de como é possível concretizar ideias complexas e abstratas de maneira a que as crianças consigam digerir a mensagem e não aborrecê-las, ao mesmo tempo que consegue atingir o público mais adulto.
"Soul" é sem dúvida um filme visualmente perfeito. Cada pormenor, o contraste da cidade de Nova Iorque com o Grande Além... uma visão notável.
A animação de todo o filme é a melhor que já vi na Pixar. Com representações criativamente inspiradas do desconhecido à beleza realística da paisagem da cidade e à maravilhosa realização de personagens negras.
Após o esforço em representar a cultura mexicana em "Coco" , foi de tirar o chapéu ver o cuidado em destacar a cultura negra.
Outra das grandes qualidades do filme é a banda sonora. Maravilhosas composições de jazz que complementam de maneira perfeita a atmosfera da cidade de Nova Iorque, e que nos fazem teletransportar para aquele espaço de uma forma imersiva.
Os gênios da Pixar criaram histórias que desempenharam um papel significativo em me ajudar a crescer como pessoa. "À Procura de Nemo" fez-me gostar ainda mais do meu pai, "Ratatui" ensinou-me que os sonhos são alcançáveis, "Up Altamente" deu-me as ferramentas necessários para lidar com o luto, "Divertidamente" lembrou-me a importância de sentir tristeza, e agora "Soul" a reconfortar-me e lembrar-me que vale a pena viver.
Acreditei em muitas mentiras durante este ano. Acreditei que os meus sonhos eram absurdos. Acreditei que estava destinado a ficar sozinho e que os meus amigos e familiares estariam melhor sem mim. Acreditei que a minha vida não fazia sentido. Tive bastante dificuldade em comunicar os meus sentimentos e lidar com a minha ansiedade. Não conseguia encontrar palavras para explicar o quão toxica e venenosa a minha mente se encontrava e que me estava a impedir de ver o meu potencial e o quão eu valho.
Existem poucos filmes que realmente mexeram a 100% com a minha vida e "Soul" é um deles.
Quando um filme é digno de elogio normalmente é porque a escrita é boa, porque a fotografia é incrível ou porque as performances são cativantes. E não é fácil um filme ter todas as categorias, mas sem sombra de dúvida que "Soul" tem isso tudo.
Desde à animação, às personagens, à dobragem, à banda sonora... tudo isso faz de "Soul" um filme perfeito. O que o torna especial, o que o solidifica como um filme que irá resistir ao tempo é a sua forma de causar um profundo impacto para quem o assiste.
Eu precisava de "Soul". Ele mudou sem dúvida a maneira como quero viver a minha vida e fez perceber que mesmo num inferno como 2020 vale a pena viver.
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