Ran
“Não chore, são os deuses que deveriam chorar.
Eles veem uns aos outros se matarem, vez após vez, desde o início dos tempos… e ainda assim permanecem em silêncio.”
Ran, além de uma perfeita releitura da famosa história de Rei Lear, traz um visual único e maravilhoso. O uso de cores, enquadramentos, roupas e maquiagem fazem o espectador se sentir como se estivesse vendo uma tela pintada a óleo em movimento.
Aqui Akira Kurosawa não se preocupa em retratar atos de heroísmo ou catarse, mas sim enfatizar o inevitável ciclo de ódio e violência no qual o poder se origina e ele próprio cria. As suas retratações de guerra são extremamente poéticas justamente pela ausência de palavras, somente a música e as imagens nos mostrando o que realmente se trata a guerra.
Entretanto, o diretor não se contenta com “somente” representar o esse ciclo vicioso, ele vai além ao representar a sucumbência da humanidade via diversas formas, a loucura, a morte, a perda total de expressão de personalidade, e a inevitável descrença na sociedade e na religião. A última cena é simplesmente perfeita e consegue transparecer esse ultimo aspecto de uma maneira incrivelmente brutal, mas ainda poético.
Portanto, Ran não é só sobre a corrupção pelo poder, mas sobre como a violência que constrói o poder inevitavelmente retorna, dissolvendo não apenas o indivíduo, mas toda a ordem ao seu redor em um caos irreversível.
C I N E M A