Stalker
"A ZONA é um sistema complexo de armadilhas. Todas são mortais. Não sei o que se passa aqui quando não tem humanos. Mas quando aparecem pessoas, tudo começa a mexer. As antigas armadilhas somem, surgem novas. Os lugares seguros ficam intransitáveis. E o caminho, ou é fácil ou fica infinitamente complexo. É A ZONA. Às vezes, tem até o seu capricho. Mas ela é, em cada momento, como a fizermos com o nosso espírito. Na verdade, algumas pessoas tiveram que desistir na metade sem cumprir o objetivo. Outras morreram já na entrada do Quarto. Mas tudo que acontece aqui depende de nós, não da ZONA!"
A ZONA é a representação mundana do desejo humano (tanto que, ao se aproximarem cada vez mais dela, o filme vai ganhando cor), que parece objetivo, mas não é, e além disso, é influenciável; em constante devir; a expressão mais autêntica do indivíduo. A realização pessoal se encontra justamente na satisfação do seu egoísmo, que é a força motriz por trás de todas as suas ações.
"Como posso saber o nome daquilo que desejo? Como posso saber que, no fundo, não desejo o que não desejo? Ou que, digamos, não desejo de fato o que não desejo? São coisas efêmeras... Basta dar-lhes um nome e perdem o sentido, desvanecem. Como uma água viva ao sol. Entende? Minha consciência quer a vitória do vegetarianismo por todo o mundo... mas o meu subconsciente morre por um bife suculento. E eu? O que eu quero?"
Já o quarto representa um desejo "metafísico", ligado à compreensão da sua própria concepção mundana.
"Agora vai viver cem anos!" "Sim. E por que não eternamente?"
Como o desejo se apresenta em constante devir, ele nunca é, e portanto, nunca é satisfeito.
"Então a ZONA deixa entrar os bons e elimina os maus?" "...Me parece que deixa entrar quem não tem mais esperança. Não os bons ou os maus, mas os infelizes!"
"Um certo dia, o Porco-Espinho foi embora daqui... e simplesmente ficou rico." "Uma semana depois se enforcou."
"Quanto a mim, eu nunca vi uma pessoa feliz." "Nem eu. Voltam do quarto, levo-as de volta e nunca mais nos encontramos."
Acho que passei mais de 4h30 assistindo esse filme. Enquanto acredito que para muitas pessoas voltar e reassistir algumas cenas pode "quebrar o clima", para mim, pelo menos em certos filmes, acrescenta muito na experiência.
Muitas reflexões acerca do filme e seus arredores ficaram de fora da review, e mesmo assim ficou enorme. Além disso, muitas questões não se tornaram claras para mim, como o papel do stalker e a diferença, se ela existe, do papel do stalker para o papel do nosso stalker (interpretado pelo Aleksandr).
E, em resumo, eu acho que a obra é extremamente pessoal. Uma obra-prima da interpretação, clássico do diretor.