Bacurau
“Se for, vá na paz.”
Somente essa frase já poderia resumir o filme todo, mas ainda assim há muito o que ver.
A obra se inicia com uma jovem retornando para sua cidade, Bacurau, para o velório de uma senhora conhecida, o que desde já evidencia a união dos moradores da pequena comunidade. O primeiro ato é longo e pode até parecer tedioso e monótono, mas isso se mostra necessário para a introdução e a ambientação do filme. Aos poucos, cada personagem é apresentado de maneira sutil, assim como seu papel dentro da cidade, inserindo o espectador no cotidiano do povoado e deixando claro que não se trata da história de um protagonista individual, mas da comunidade como um todo, que acaba se unificando como um único personagem central.
Ao longo da trama, acontecimentos, mistérios e episódios de violência constroem um clima constante de tensão e imprevisibilidade. São situações aparentemente pequenas que, juntas, criam um quadro grave, deixando tudo implícito e provocando no espectador um sentimento de nervosismo e dúvida, semelhante ao vivido pelos próprios moradores. Isso se evidencia quando Bacurau desaparece do mapa para aqueles que vêm de fora, o que pode representar o abandono sofrido por um lugar pobre, visto como fragilizado e indefeso. Essa sensação se intensifica com a chegada de dois forasteiros que, à primeira vista, parecem inofensivos, mas que aos poucos revelam, de forma não totalmente explícita, sua verdadeira intenção, reforçando a ideia de que Bacurau está sendo observada e de que essas figuras fazem parte de algo maior.
Conforme a ameaça deixa de ser apenas implícita e se revela de forma mais direta, o filme expõe que a violência sofrida por Bacurau não é aleatória, mas organizada e planejada. Nesse ponto, torna-se evidente o contraste entre os dois lados: os estrangeiros praticam a violência por diversão e por um sentimento de superioridade, tratando a cidade como um espaço descartável e seus moradores como alvos. Já os habitantes de Bacurau recorrem à violência por necessidade, como única forma de defesa diante da invasão, reforçando que não se trata de vingança, mas de sobrevivência. Essa reação só é possível graças à união da comunidade e à valorização do próprio território, construído a partir da memória, da identidade e do pertencimento, transformando Bacurau em um símbolo de resistência.
Por fim, Bacurau se destaca por não se prender a um gênero específico, misturando drama, western, suspense, mistério e terror de forma orgânica. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles integram o espectador ao ambiente da cidade, fazendo com que ele viva aquele espaço antes de qualquer conflito explícito, algo que remete à forma como Quentin Tarantino constrói o cotidiano em Era Uma Vez em Hollywood. No entanto, enquanto Tarantino aposta em uma violência gráfica e estilizada, quase como um espetáculo, em Bacurau a violência tem peso moral e simbólico, carregada de significado social e político. Assim, o filme utiliza sua mistura de gêneros e sua abordagem da violência não como espetáculo, mas como crítica, reforçando sua mensagem sobre desigualdade, abandono e resistência coletiva.