Philadelphia
"Eu perdi um amigo que nadava comigo nos anos 80 para AIDS."
Meu pai, nascido em 1957, me disse isso quando eu contei que ia finalmente ver Philadelphia. Ele tinha vinte e poucos anos quando os amigos começaram a morrer.
Hoje HIV tem tratamento, a carga viral fica indetectável e quem é soropositivo vive a vida inteira sem grandes complicações se seguir o protocolo. Nos anos 80 era mistério absoluto. Acreditava-se que pegava num abraço, num aperto de mão, num copo. O CDC já dizia desde 83 que contato casual não transmitia, e o país seguiu acreditando no contrário por mais uma década. Reagan não fez um discurso público sério sobre a doença até 1987, seis anos depois dos primeiros casos notificados, com dezenas de milhares de americanos já mortos. Em 88 o governo teve que imprimir uma cartilha e despachar para cada casa dos Estados Unidos, que é o tipo de medida que um país só toma quando já perdeu o controle da conversa.
E foi na comunidade LGBT que isso tudo caiu. Gente que já vinha levando porrada de todo lado e que agora tinha um motivo sanitário para ser expulsa de emprego, de casa, de hospital.
Aqui foi igual, só que do nosso jeito. Markito, o estilista que vestia Sônia Braga, morreu num hospital de Nova York em junho de 83, aos 31, e virou o primeiro rosto da doença num país que ainda nem sabia direito o nome dela. Depois veio Lauro Corona, em 89. Mas o capítulo que quase ninguém lembra, e que é o mais sujo, é o dos hemofílicos: Henfil morreu em janeiro de 88, o irmão Chico Mário morreu no mesmo ano, os dois infectados em transfusão, porque banco de sangue aqui era comércio e não tinha controle nenhum. Só no Rio, 70% dos 1.150 hemofílicos registrados foram contaminados. O terceiro irmão, Betinho, fundou a ABIA em 86 e passou o resto da vida arrancando a AIDS da medicina para jogar na política, que era onde ela sempre esteve.
Philadelphia só existe porque uma lei tinha acabado de ser escrita. O Americans with Disabilities Act, de 1990, passou a cobrir HIV e AIDS como deficiência, e é a base jurídica do caso do Andrew Beckett.
Tom Hanks e Denzel Washington atuam sabendo exatamente o tamanho do assunto, e a humanidade que os dois colocam ali é o que te carrega até o fim. Mas o que o Demme faz com o Denzel é mais engenhoso e mais desconfortável do que parece, Joe Miller é homofóbico. O personagem que serve de porta de entrada para o público é um cara com exatamente o preconceito do público. Demme não fez um filme sobre um homem gay morrendo. Fez um filme sobre um homem hétero aprendendo. Todo o arco que transforma Miller e Beckett em amigos me pegou de um jeito difícil de detalhar, e demorei para entender que ele funciona justamente porque o filme entrega a vida interior ao homem errado. Beckett morre para que Miller cresça.
Vale lembrar de onde Demme vinha. Dois anos antes ele tinha feito O Silêncio dos Inocentes e sido acusado de homofobia por causa do vilão, com protesto até no Oscar. Philadelphia é resposta a isso, e é por isso que o filme é tão educado. Pedido de desculpas é gentil por definição.
Que é também minha maior ressalva. O filme é menos grotesco e menos sujo do que o assunto exige. Beckett é rico, elegante, monogâmico, tem família que o apoia e praticamente não toca no Miguel. Ele e o Antonio Banderas quase não se encostam em tela. É um homem gay construído para ser o menos ameaçador possível aos olhos de quem tinha medo dele. E funcionou, o filme entrou em shopping do meio dos Estados Unidos, faturou uma fortuna, e o Hanks subiu no palco do Oscar para falar do professor de teatro gay da escola dele em rede nacional.
Só que quando Philadelphia estreou aqui, em março de 94, o Brasil já tinha enterrado Markito, Henfil, Chico Mário, Lauro Corona e Cazuza. Cinco anos antes, em 26 de abril de 89, a Veja tinha posto Cazuza na capa com a chamada "uma vítima da AIDS agoniza em praça pública". Corpo magro, olho fundo, a morte anunciada em manchete de um homem que ainda ia viver mais catorze meses. Ele leu, teve uma parada respiratória e foi internado. Não foi coragem editorial coisa nenhuma, foi canalhice.
Enquanto Hollywood montava um homem gay impecável, monogâmico e de terno para conseguir a simpatia americana, o que estava exposto na banca de jornal brasileira era um roqueiro drogado, bissexual, escancarado, que não fazia a menor questão de ser palatável para ninguém. O país chorou por ele mesmo assim. Ainda canta as músicas dele em bar de esquina. Não sei o quanto disso é mérito nosso e o quanto é acaso de um cara que já era amado antes de adoecer, mas o contraste com a estratégia do filme é grande demais para ignorar.
E não estou dizendo que aqui teve menos preconceito. Teve muito, do tipo que fez um dos maiores compositores do país morrer sem nunca dizer a palavra: Renato Russo morreu em 11 de outubro de 96 negando o diagnóstico até o último dia. Trinta e três dias depois, em 13 de novembro, o Brasil assinou a Lei 9.313, que obrigou o SUS a distribuir antirretroviral de graça para qualquer um, e em três anos as mortes caíram pela metade. O mesmo país da capa da Veja virou referência mundial em política de AIDS. Não porque tivesse ficado melhor de repente, mas porque tinha uma coisa que os americanos não tinham e até hoje não têm, que é sistema público de saúde.
Nos poucos minutos em que Philadelphia para de tentar ser “gentil”, o filme é devastador. A cena da ópera, Maria Callas em "La mamma morta", a luz vermelha, a câmera girando, o Denzel sem entender o que está vendo. É a única vez em que Demme abandona o realismo do resto do filme, e não é coincidência que seja a única vez em que ele é visceral de verdade.
No fim eu voltei para a frase do meu pai. Philadelphia precisou de duas horas, dois Oscars, uma música do Springsteen e um homem gay impecavelmente respeitável para convencer os Estados Unidos a chorar por alguém como o Andrew Beckett. Meu pai fez a mesma coisa em doze palavras.