Before Midnight
dentre todos os filmes da trilogia, senti que esse foi o mais profundo. incrível como nenhum dos três filmes consegue ser ruim ou se quer mediano, em meu ponto de vista, eles apenas gradualmente vão evoluindo, o primeiro é bom, o segundo é ótimo, e o terceiro excelente.
em todos os filmes da sequência existem questionamentos, questões climáticas, históricas, artísticas, tudo. mas nesse, os apontamentos se assemelham a fase em que o relacionamento dos protagonistas está. a efemeridade da existência humana, alguém que conhecíamos se torna um desconhecido, se esvai em nossa essência até que lentamente nossas memórias com algum ente querido se desmembrem por completo, e isso é retratado não só pela perda de natalia, mas também pelo afastamento de jesse com henry, o pai se espanta a perceber que o tempo está passando e que seu filho já não é mais frágil e inocente, que já não precisa mais dele. e por entrar em histeria, acaba prejudicando seu relacionamento em busca de retomar o tempo perdido.
não concordo totalmente com céline, porém, sinto que também me sentiria invalidada nessa situação, pois além da sobrecarga da rotina, monotonia da relação e todos os outros fatores, apenas ela teria que ceder para que ele tivesse o que deseja, deixando pra trás sua carreira e tudo que construiu.
a película aponta em diversos momentos a visão distorcida que temos sobre relações românticas, e como o conceito de "almas gêmeas" é totalmente disfuncional, principalmente para o gênero feminino.
passamos a vida toda sendo ensinadas de que o "amor romântico" é o maior objetivo a ser alcançado, deixamos de seguir nossas carreiras, objetivos, paixões e até mesmo desvalorizamos outras relações humanas, como amizade, nos prendendo apenas a família. sinto que isso surge da ideia de que sozinhas somos incompletas, buscamos durante toda a existência a metade da laranja, nos prendendo a um ideal em que a individualidade é inexistente dentro de um namoro ou casamento, em resumo, acredito que buscar ser um só e se invalidadar dentro de uma relação só leva a extinção de algo que poderia ser grandioso.
no filme tudo isso é frequentemente explorado, a forma em como pros homens tudo é diferente através dos papéis de gênero impostos socialmente.
"Sabe o que tá acontecendo? É simples, acho que não te amo mais."
outro ponto interessante é a rotina, a maneira como casamentos geralmente têm prazo de validade, justamente por caírem na rotina.
quando se é jovem, você é livre. trabalho, estudo, tudo pode ser levado com leveza. já na maturidade, nós não somos individuais, tudo fica mais sério, existem crianças ou outros dependentes, sua carreira é algo relevante, e conforme as coisas acontecem, você se torna gradualmente mais sobrecarregado, o que eventualmente afeta seu relacionamento, o desgasta. até mesmo em momentos de alívio, sempre há algo a ser discutido, um motivo pra gerar briga, e é nesse ponto em que muitas relações acabam.
o filme mostra que o amor não é a única coisa que mantém uma relação, mas é o principal pilar para se agarrar quando tudo parece desmoronar. pra conviver com alguém, precisamos nos reinventar diariamente, e ao se verem no fundo do poço, ethan hawke e julie delpy fazem um lindo trabalho ao mostrar a mais linda história de romance do cinema, os personagens já não se conhecem mais, mas ainda se amam e veem nisso um incentivo para se reencontrarem dentro de toda monotonia.
amor não é apenas afeto ou sexo, é companheirismo, insistência, carinho, parceiria, e principalmente, paciência.
(obs: o diálogo sobre a humanidade estar em declínio, se aproximando cada vez mais da obsolência por conta da tecnologia é TREMENDAMENTE real e atual, mesmo depois de 13 anos.)