Monster
"I'm normal now."
"You were always normal."
O filme começa como um drama sobre conflitos escolares, mas pouco a pouco revela ser algo muito mais complexo. Cada nova perspetiva muda completamente a forma como vemos os acontecimentos, obrigando-nos a questionar os julgamentos que fazemos com tanta rapidez.
Em vez de mostrar um vilão claro, a história mostra como o preconceito, a incompreensão e a necessidade constante de encontrar culpados podem ferir pessoas inocentes. Muitas vezes apontamos o dedo a alguém quando o problema é muito maior e está espalhado por toda a sociedade
O que mais me tocou em Monster foi a relação entre Yori e Minato. Num mundo cheio de adultos que julgam e distorcem tudo à sua volta, os dois encontram um refúgio um no outro. A ligação deles é construída por inocência e sinceridade, tornando-se o espaço onde finalmente podem ser livres de expectativas e regras impostas pelos outros.
O filme mostra como a homofobia nem sempre surge através de atos explícitos de violência. Muitas vezes manifesta-se em comentários aparentemente inofensivos ou na ideia de que existe uma forma "correta" de ser rapaz. São essas mensagens constantes que fazem crianças como Yori e Minato questionarem a própria identidade e sentirem vergonha de sentimentos que deveriam ser naturais.
O mais doloroso é perceber que eles nunca fizeram nada de mal. Ainda assim, carregam o peso dos medos e preconceitos dos adultos à sua volta. Enquanto muita gente procura transformar a relação dos dois em algo estranho ou problemático, o filme escolhe vê-la pelo que realmente é, um vínculo profundo e puro.
Kore-eda trata essa história com uma sensibilidade enorme, recusando reduzir os personagens a rótulos. Em vez disso, mostra como o preconceito pode roubar a felicidade e a inocência de crianças que apenas procuram compreensão e aceitação. Ver Yori e Minato juntos faz-nos desejar um mundo onde ninguém precise de esconder quem é ou sentir culpa por amar, cuidar ou encontrar conforto noutra pessoa.
É por isso que a pergunta "Quem é o monstro?" é tao dolorosa. Porque, no final, os monstros não são as crianças. São os preconceitos, os julgamentos e a crueldade que as fazem acreditar que há algo errado com elas.