Stalker
Nunca tinha visto nenhum filme do Tarkosvky, muito menos um filme russo, eu não sabia do que se tratava o filme e estava há mais de 1 ano para vê-lo. Eu tinha muitas expectativas, entretanto, pouca noção do que me aguardava.
Três homens embarcam em uma aventura, a ida a The Zone, um local inóspito e anecúmeno, o qual, se competente, se leve, se flexível e se respeitoso pode te levar a The Room, onde seu maior ( e único) desejo interior é realizado, uma salvação!? ( Ou um teste para verdade)
**Hardness and strength are death's companions.
Flexibility and softness are the embodiment of life.
That which has become hard shall not triumph.*No filme é dito que nenhum homem volta de The Zone e isso é uma fala perfeita e contundente, ou morrem por lá, ou, da mesma forma que o barco de Teseu nunca é o mesmo, e que nunca se banha do mesmo rio, ninguém nunca volta igual de The Zone, especialmente os Stalkers, pessoas experientes que conhecem a área e que, por código de conduta padrão, evitam a The Room*, apenas guiam os visitantes até lá.
Acho muito marcante todo o gradiente do filme, a cidade é morta e amarelada, enquanto, por mais abandonada que seja, The Zone é verde, tem cor e tudo oriundo de lá me fascina, o detalhismo presente nesse filme é de outro nível, dá vontade de tentar entender cada ângulo, cada zoom, cada frame, cada objeto posicionado, cada diálogo e até adivinhar o real motivo e estado dos personagens por trás dessa ida.
Como, por exemplo, uma que só fui perceber após refletir sobre o filme: Por que o escritor levaria uma arma se não tem ninguém e nem nenhuma ameaça viva na The Zone? Tudo indica que para uso próprio.
Em The Zone o caminho mais rápido nem sempre é uma linha reta, daí surge a importância dos Stalkers que não só guiam o escritor e físico, como nos guiam durante essa aventura com atuações perfeitas dos 3 principais e também da mãe e filha.
Chegando na The Room o professor apresenta uma bomba e fala que vai destruir a sala pois ela é uma ameaça para a humanidade nas mãos erradas e que facilmente poderia ser usado para o mal, então, daí surge um ponto interessante: O que falamos é realmente o que sentimos? Seria essa a verdadeira natureza dele ter ido até ali? Ou seria apenas uma desculpa externada?
Diante disso, é necessário lembrar do caso de Porcupine: Ele era um Stalker, portanto, sequer deveria entrar a The Room, mas, por urgência, segundo ele, para curar seu irmão, sua maior razão, decide ir até ela, porém, ao retornar ao mundo, percebe que ele estava rico, ou seja, o verdadeiro maior desejo dele nunca foi o irmão.
Chocado pelo próprio egoísmo, Porcupine se mata.
Abordando o próprio escritor e o motivo dele ter ajudado a separar o Stalker da bomba:
A man writes because he is tormented, because he doubts. He needs to constantly prove to himself and the others that he's worth something. And if I know for sure that I'm a genius? Why write then? What the hell for?Escritores são pessoas que são movidos pela curiosidade, pelo sentimento, pelas possibilidades, como ele poderia retornar o seu prazer de escrever se, do dia pra noite, ele se torna um gênio? Se ele descobre a resposta pra antropologia? Sobre a vida extraterrestre? Sobre a morte? Não se teria, logo, com medo, ele apoia o físico e sua bomba na reta final.
Físico e Professor, como fundamento do logos, também é alguém que é cientificista e que desacredita e desaprova da fé, todo aquele discurso era apenas um ensaio, uma desculpa que comprova que os dois não estavam dispostos a correr riscos e, por mais infelizes que estavam, pois estavam, eram o pior dos piores caso, porque sequer tinham esperança da salvação, da dinamicidade, eles temem que a The Room revelaria seus desejos mais profundos e revelaria que existe algo místico de fato, expondo a pequenez e fragilidade da razão sob a remota possibilidade de existir algo maior que ela.
Ao voltarem e ao chegar em casa, a esposa do Stalker fala sobre como a felicidade só existe em meio a lamentação e, de fato, é melhor viver uma vida “azeda” de complicações que nós escolhemos do que se arrepender da mesmice para sempre, no fim, não existe felicidade máxima sem conhecer a tristeza profunda e nunca vai existir esperança se você nunca esteve perto da perdição.
Mama used to say: "he's a stalker, a marked man, an eternal jailbird. Remember the kind of children stalkers have." I didn't even argue. I knew all about it, that he was a marked man, a jailbird. I knew about the kids. Only what could I do? I was sure I'd be happy with him. I knew there'd be a lot of sorrow, but I'd rather know bitter-sweet happiness, than a grey, uneventful life. Perhaps I invented all this later. But when he come up to me and said: "Come with me", I went. And I've never regretted it. Never. There was a lot of grief, and fear, and pain, but I've never regretted it, nor envied anyone. It's just fate. It's life, it's us. And if there were no sorrow in our lives, it wouldn't be better, it would be worse. Because then there'd be no happiness, either. And there'd be no hope.Por fim, temos a última cena, onde mostra a filha, que sempre foi retratada colorida, com alguma forma de telecinese, a explicação sensata dos poderes é que os Stalkers entram em contato com a área e isso os afeta posteriormente, gerando filhos “defeituosos”, só que, ao meu ver, a filha é a prova de que a The Room é real e que a esperança existe, o quão complementar é alguém imóvel ser capaz de manipular coisas? O verdadeiro poder dela é, mesmo tendo essa condição, se manter com fé. Não é por ela ter os poderes que ela tem esperança, é por ela ser quociente do Stalker, da mãe e da Zona que ela tem esperança e, portanto, tem os seus poderes.
Se eu pudesse descrever esse filme em uma palavra seria: Fé
There's nothing else left to people on Earth. This is the only place to come to when all hope is gone.
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