A Clockwork Orange
Laranja Mecânica fala sobre pegar algo orgânico e transformá-lo em algo mecânico, controlado, sem mais sua essência. O filme fala sobre ultra violência e livre-arbítrio, com Alex sendo um jovem que ama música e cometer ultra violência, e isso, de certa forma, faz parte de quem ele é. Essa contradição define o personagem. Um ponto muito forte é seu jeito meio infantil, tanto na fala quanto no modo de agir, mostrando que até pessoas assim têm desejos e vontades sombrias por dentro.
Na parte da lavagem mental e do controle de Alex, surge um dos temas mais interessantes do filme que tirar o livre-arbítrio para controlar pensamentos e desejos, chegando ao ponto de transformar gostos pessoais em tortura para fixar essa mudança, com o exemplo de que Alex ama uma música específica, mas o sistema agora faz uso dela como um meio para fazê-lo lembrar de sua tortura e até sofrer com isso. Porém, ao tentar remover a “parte ruim” das pessoas, o sistema acaba removendo também sua essência, seus próprios pensamentos e ações, deixando tudo mecanizado, sem uma identidade real.
Mesmo com essa lavagem, os erros do método ficam evidentes. No fim, ainda vai existir violência no mundo e a quem possa fazer ela com ele mas Alex não consegue nem mais se proteger da violência que sofre. Aquilo que chamam de ultra violência sempre fez parte do que ele é e do que ele sente. Algo que o filme mostra sobre a violência do Alex, e que deixa tudo ainda mais fantástico, é que, para ele, a violência é como arte. Por isso, os atos de maldade que ele cometia são bem performáticos e artísticos. Por causa disso, essa violência fazia parte dele de um certo modo, e o filme mostra isso de uma forma muito bela e artística também. Ao arrancar isso dele, junto com suas paixões, o sistema não cria alguém melhor, mas alguém vazio, morto por dentro, onde só o corpo continua existindo.
No final, mesmo com Alex “mudado”, o mundo e o sistema nunca mudam de verdade. A violência e a injustiça continua existindo e seguimos vivendo em um mundo que nos obriga a agir por conta própria, guiados pela nossa própria moral. Mas Alex já não tem mais nada disso. Ele perde a capacidade de escolher, de reagir e de agir por si mesmo. O que sobra não é um ser humano transformado para melhor, mas apenas algo funcionando, controlado, sem essência e sem livre-arbítrio.
O final também deixa claro que, mesmo fora da cadeia, Alex nunca está realmente livre. Ele continua preso a um sistema que agora o controla de outra forma como decidindo por ele seu futuro, seu trabalho, como deve agir e até quanto vai ganhar. A liberdade que ele “recupera” é só aparente, porque tudo já vem escolhido por alguém acima dele, transformando-o em algo mecânico, programado. O sistema continua atrás de Alex justamente porque percebe que ele foi um experimento falho, criado a partir de ideias perigosas, e que alguém como ele poderia até ser usado contra o próprio sistema. Por isso, ele não pode escolher de verdade. Ele é mantido sob controle, preso não por grades, mas por um mundo que nunca vai permitir que ele exista fora das regras.
Com o final, Alex não é curado. Ele volta a sentir prazer com a violência e o abuso, retomando seus impulsos e gostos exatamente como no início do filme. O tratamento falhou e até a fala de Alex no final deixa claro isso, "eu estava curado, sim". O sistema passa a utilizá-lo em vez de tentar moldá-lo. O filme deixa claro que a verdadeira pergunta não é se Alex é mau, mas se faz sentido tentar tornar alguém "bom" à força apagando sua humanidade. O final deixa claro que métodos autoritários de controle podem falhar, e que a violência é um instinto humano que não desaparece só com manipulação externa. A violência existe como impulso, mas o que nos torna humanos é a capacidade de decidir agir ou não sobre ela.