Cure
Cure, que título irônico.
O nome do filme carrega uma ironia cruel, porque aquilo que vemos não é uma cura, mas a revelação de algo incurável. O mal apresentado não nasce em um antagonista tradicional, ele já existe dentro do ser humano. A violência faz parte da nossa natureza, algo estrutural, e por isso não pode ser curada. Essa figura central não cria nada, ela apenas retira as trancas que mantinham essas ideias e impulsos sombrios escondidos no fundo da mente, libertando aquilo que sempre esteve ali.
O filme nos apresenta uma presença que usa a hipnotização como ferramenta, não para criar agressividade, mas para liberá-la. E é justamente aí que está a genialidade da obra, porque nada é implantado nas pessoas. A raiva e a vontade de ferir já fazem parte do humano, apenas ficam reprimidas, trancadas no fundo da mente, e essa presença só abre a porta.
É uma figura perfeita para essa obra. O suspense construído ao redor dela é extremamente bem trabalhado, assim como os mistérios e as perguntas que deixa no ar. Ela não age de forma direta o tempo todo, transforma outros em propagadores do mal, marcando suas vítimas com um “X” feito de cortes, se tornando algo cheio de camadas, tenebroso e assustador não só pelo que é, mas pelo que desperta nos outros.
A obra fala muito sobre o vazio interno e sobre as falsas identidades que mantemos para continuar parecendo bem. Essa presença representa e distorce isso de forma brilhante, porque antes de hipnotizar suas vítimas ela entra na mente delas de maneira quase íntima, fingindo não lembrar de nada, perguntando sobre suas vidas, seus gostos, quem elas são. Para no final arrancar tudo isso e deixar apenas a violência existindo, livre e sem filtros.
Gosto muito de como o filme apresenta tudo isso sem explicar demais. Ele confia nos diálogos entre os personagens, de forma natural e nada forçada, criando ainda mais mistério e aprofundando a experiência de maneira silenciosa e perturbadora.
Uma das melhores partes é a primeira aparição dessa presença. Ela surge do nada na praia, como se tivesse acabado de cair ali ou simplesmente nascido naquele espaço. Nesse momento inicial aparece reluzente, envolta em luz branca, quase como algo divino e misterioso. Conforme avança, vai se tornando cada vez mais humana, ganhando presença e forma, justamente para enganar melhor e se infiltrar na mente das pessoas.
A partir de certo ponto da obra sentimos um vazio crescente, tanto no protagonista quanto no mundo ao redor, e é aí que o mal passa a ser sentido mesmo quando não está em cena. Nas sequências de ritmo lento e nos espaços silenciosos, sentimos que ele está ali, observando, marcando presença. Esse mal invisível cria uma tensão constante, inquietante, porque sua ausência física só reforça sua influência.
Quando o filme termina, percebemos que nada realmente acabou. Depois de ficar vazio por dentro, o protagonista também se torna um hospedeiro desse mal. Ele teve suas trancas retiradas e passa a continuar o ciclo, se transformando em mais um propagador dessa violência libertada.
Mesmo com a derrota dessa presença original, e com os diálogos revelando que ela era um missionário, entendemos que seu propósito foi cumprido. Ela veio ao mundo apenas para espalhar esse mal, e no final conseguiu criar um ciclo infinito, onde a violência não precisa mais de um criador, apenas de alguém disposto a libertá-la.