Aftersun
Lindo. Confuso. Sensível.
Acho que não tem como começar essa Review sem falar sobre o ponto que achei mais incrível do filme: a fotografia. Esse filme não tem medo de usar cores, reflexos e câmeras em posições diferentes. Usando um espelho, uma mesa, uma foto sendo revelada mas também o nada. É um filme que ele não te mostra o que você quer ver mas o que você precisa ver de uma história que tá ali acontecendo na frente dos nossos olhos com detalhes que a gente, por muitas vezes, passa batido. Faz com que a gente foque no que tá sendo falado, não naquilo que a gente vê e acho que isso é uma analogia perfeita, parando pra pensar agora, para o que o filme nos conta: uma história sobre depressão.
Eu sabia poucas coisas sobre esse filme quando coloquei para assistir:
1) uma história baseada em coisas reais2) que muita gente chorou muito vendo.
Nada além desses dois pontos. E esses dois pontos por si só já me fizeram querer muito ver o filme e ao mesmo tempo evitar ao máximo possível de assistir.
Mas agora assisti e parte de mim, não dá pra negar, está meio decepcionada que eu não chorei nem uma lágrima. Eu sabia que era um filme triste então já estava esperando que alguma coisa aconteceria e não demorou muito para eu perceber a depressão do Callum em pequenos detalhes. O filme todo tem uma sensação sufocante de despedida mas você não sabe ao certo a despedida de que.
Eu demorei um pouco para pegar o ritmo do filme, parte por sua construção não comum de história aonde você, apesar de acompanhar uma história, não sabe exatamente o que está acompanhando, e parte talvez por minhas capacidades mentais reduzidas. Mas ainda assim, mesmo em momentos que eu sentia que eu não estava entendendo a história eu sentia... Sentimentos. Eu via uma Sophie que queria fazer suas próprias coisas, jogar com suas novas amizades feitas no hotel, quer jogar com outras pessoas e fazer coisas sozinha. Viver sua pré-adolescencia que a deixa com aquele sentimento, que todo pré-adolescente sente de querer sair do pré e ser apenas adolescente. Velho demais para ser criança e jovem demais para ser um adolescente. Enquanto temos um Callum que tenta fazer de tudo para aproveitar a viagem com sua filha mas tendo momentos onde a escuridão o consome e mesmo aquelas coisas que o faziam feliz e que faziam a Sophie feliz não estão mais em seu alcance para fazer. Para a Sophie era apenas mais alguns dias com seu pai enquanto parece que seu pai secretamente sabe que aquilo é uma última vez. Não dizendo que ele já tinha tudo planejado mas acho que ele sabia que não ia aguentar tempo suficiente para repetir. A depressão é assim. A depressão faz com que as pessoas se agarrem a bons momentos sempre com medo e o sentimento que aquele pode ser o último.
Tem várias cenas, que agora que eu terminei o filme, repensando eu consigo entender uma simbologia por trás mas a que mais me marcou foi a cena do Callum indo para o mar. Eu até poderia marcar essa Review como "contém spoilers mas não acho que 1) uma pessoa que ainda não assistiu o filme vá ler uma Review - especialmente uma review desse tamanho - se não quer spoiler e 2) que seja spoiler afinal aqui eu vou estar falando apenas da minha interpretação disso tudo. Mas voltando a cena do mar... Você vê um Callum andando na escuridão. Em um primeiro pensamento da pra se imaginar que ele está indo atrás da Sophie que ainda não tinha voltado para o quarto em que eles estavam mas logo da para ver ele entrando em uma praia escura onde se escuta o barulho alto do mar mas não o vê. Callum também está completamente vestido com roupas escuras e no meio do percurso pega até mesmo um cigarro usado do chão mostrando meio que como sua situação estava das piores mesmo e foi nessa cena que eu tive uma certeza "esse cara vai se matar!" Eu falei. Até cheguei a me questionar se o filme acabaria ali mesmo sem mais cenas visto que eu não estava acompanhando a barra de tempo do filme mas logo o filme volta quase como se nada tivesse acontecido e pensando agora vejo que talvez aquilo ali não fosse uma forma linear que estavam contando a história afinal se quer fazia sentido ser. Mesmo assistindo o filme eu pensava "nossa, mas tá certo isso?" Não, não estava.
O filme é divido quase que em 4 atos sendo separados pelas cenas de rave que não dá pra entender nada até talvez a cena final, que aí é só uma confirmação daquilo que você se questiona durante o filme todo mostrando "esse é o final, tava aqui na sua cara o tempo todo e você só se recusou a entender".
Eu não chorei mas é um filme que me fez sentir e eu poderia transformar essa Review em algo muito mais longo do que já está sendo falando todos os pensamentos e realizações que estão vindo na minha cabeça nesse momento mas acho que é aquele filme que você não vai entender de primeiras, talvez vai entender na segunda e só, realmente, entender na terceira. São camadas em ambos os personagens que tem visões completamente diferentes de uma mesma história mas que tentam fazer de tudo para que seja uma história semelhante: uma história feliz.