Perfect Blue
assisti e fiquei dias com o filme rodando na minha mente. acho que minha experiência assistindo foi de ser profundamente afetada pela confusão proposta. em algum nível, entre as relações parassociais, a ingenuidade, os desejos, as consequências e os desconfortos, todos me pegaram de surpresa mesmo que o filme esteja gritando o tempo todo que aquilo realmente está acontecendo. assim como Mina, eu estava um pouco em negação. o que me faz pensar que pra além do forte comentário sobre o controle e a obsessão da sociedade sobre figuras femininas, Perfect Blue não se contenta em apresentar uma (ou mais) vítima(s) e sugere em muitos momentos que existe um nível de responsabilização e agência que é imprescindível para não se perder de si próprio na vida. o que não quer dizer que o tratamento seja justo - mas é preciso reagir.
sobre a forma como isso é possível vale pontuar a relação de dualidade que surge em vários momentos, mas me toca principalmente quando se tratando das cores - desde o início o filme didática e silenciosamente nos ambienta com a dinâmica de cenas e elementos azuis associados a serenidade, melancolia, reflexão, e a contrapartida com a cor vermelha transmitindo paixão, voracidade, nervos a flor da pele. depois de um tempo as sensações e reações andam em acordo com o que nos é apresentado, de forma bem imersiva e consistente, contribuindo muito pra adentrarmos as diversas realidades expostas. mas sinto também que essa ambição já começa bem antes: o título e o pôster sugerem uma certa inércia, angústia e posição vitimizada que nos induzem a uma leitura específica da personagem principal e dos rumos que a narrativa pode tomar. essa sugestão serve justamente para ser confrontada.
por fim, sempre vai ser interessantíssimo assistir a busca pela perfeição e conseguir se encontrar nesse esquema (pela afirmação ou pela negação). pra mim, o filme existiu quase como uma sessão de hipnose que através da loucura me trouxe mais de volta pra realidade e pra dentro de mim.