Berserk
Eu queria começar essa review explicando que eu nunca li o mangá. A primeira razão pra isso é porque eu não sou fã de mangá. A segunda é porque eu já faço parte de um fandom cujo autor faleceu antes de terminar a obra (no caso estou falando de Duna), e sei o quanto isso é frustrante. Então não me animo pra começar a ler uma obra cuja conclusão fica a cargo de terceiros.
Por que então eu resolvi ver o anime? Bem, basicamente pelo tanto que vi as pessoas comentando e elogiando a história. Fiquei interessada ao saber que continha conceitos filosóficos e metáforas religiosas. Ciente de que o anime adapta apenas o chamado Arco de Ouro (que estabelece a rivalidade entre Guts e Griffith e mostra a transformação deste em Femto) e com poucas informações adicionais do mangá, resolvi ver o anime.
Enquanto anime, é difícil fazer uma avaliação integral, visto que só temos uma temporada de 25 episódios disponível (o anime foi cancelado pois na época de lançamento o material do mangá disponível não seria o suficiente para a produção de uma segunda temporada) e que ainda termina com um claro gancho para uma segunda temporada.
Tentando relevar isso, senti que o anime é muito irregular narrativamente. Seu miolo é enfadonho e ele demora muito pra desenvolver e aprofundar a relação entre os personagens, o que é um grande problema já que Berserk se fundamenta na relação com muitos toques de tensão sexual do trio Guts, Griffith e Cascka. A partir do 18º episódio, o anime parece lembrar a necessidade de aprofundar essas questões, e com isso a narrativa ganha um novo fôlego. Eu particularmente acho isso um pecado, considerando o quanto o personagem Griffith é interessante. É muito clara a alusão a Lúcifer na sua composição, mas eu gostaria de também ressaltar que em muitos momentos me lembrei do Satã de John Milton no clássico Paraíso Perdido. Eu gostaria de ver a complexidade do Griffith mais trabalhada, assim como sua relação (de tons muito homoeróticos) com Guts.
É curioso que junto com a melhora narrativa na reta final, parece que a própria animação ganha contornos melhores. Ao longo do seu desenvolvimento, temos muitas cenas estáticas e cenas de lutas desconjuntadas. Mas todo o clímax (principalmente no eclipse) é visualmente muito belo e mais fluido.
Por fim, existe um ponto que realmente me incomodou e que considero a maior fraqueza da obra: a personagem Cascka. Não tenho como falar sobre seu desenvolvimento no mangá, mas sua adaptação para o anime é superficial e esvaziada. Embora seja descrita como uma mulher forte e destemida, todos os seus arcos e comentários são voltados a atender desejos dos personagens masculinos. Mesmo que ela seja descrita como uma das protagonistas, não há real protagonismo dela, uma vez que ela sempre está ligada e dependente das ações de Guts e Griffith. Até mesmo o seu desfecho no anime é uma violência extrema cujo objetivo é atingir Guts. No final das contas, todas as falas e cenas de estupro que a personagem sofre ao longo do anime acabam por objetificá-la e reduzi-la a mero interesse amoroso e sexual de Guts. E é "curioso" que o anime tenha tanto empenho em mostrar a violência sexual que Cascka sofre em diferentes momentos, mas apagou totalmente um estupro sofrido pelo personagem de Guts no mangá. Pelo visto a violência sexual só é imprescindível pra narrativa quando a personagem é mulher.
Com uma história interessante em um anime irregular, achei a proposta de Berserk bem legal, embora o anime não consiga corresponder as espectativas, principalmente no que tange as discussões existenciais que a história evoca.