Cure
Filmes de terror vistos em outubro de 2025
Esse ano comecei a conhecer o cinema de Kiyoshi Kurosawa e preciso dizer que estou encantada.
Há algo muito peculiar na forma como Kurosawa trabalha o terror. Mesmo o sobrenatural está intrinsecamente ligado ao coletivo da sociedade japonesa moderna. Se em "Retribution" (primeiro filme do diretor que vi) o fantasma era uma metáfora de um passado vergonhoso que o coletivo força a ser esquecido, em "Cure" (considerado a obra-prima do diretor), nós temos o estudo do mal enquanto produto social.
Há uma cura para o mal? Um denominador comum para a maldade? Ao investigar uma série de crimes brutais com o mesmo modus operandi, o detetive Takabe se questiona qual seria a ligação entre os diferentes assassinos e se há alguém (ou algo) os influenciando. É uma teoria tentadora: as mazelas e terrores terem uma causa específica. O problema é um terceiro, não a sociedade em si. Mas o próprio psicólogo criminal Sakuma avisa: não é possível influenciar alguém sem que o sentimento já não estivesse ali.
E o filme de forma muito magistral demonstra exatamente isso: a figura de Mamiya (uma das melhores construções de antagonista em filme de terror/thriller), impessoal em sua apresentação (alegando uma amnésia grave), busca estimular justamente a raiva interna de cada um. O monólogo de Takabe em um determinado momento da trama mostra como o ódio, a raiva já estavam ali, principalmente pela frustração em ver um trabalho brutal sem futuro e uma esposa adoecida.
Em termos cinematográficos, "Cure" é um deleite. Optando por enquadramentos grandes, Kurosawa consegue criar cenários amplos e, ao mesmo tempo, opressores, aliados a uma paleta de cores que prioriza cores frias e fechadas. Junto com o score de fundo, temos ambientes sempre impessoais, pouco amigáveis. Nem mesmo a casa de Takabe soa como um lar.