Hard Labor
Filmes de terror vistos em outubro de 2025
Liberte o animal que há dentro de você.
Marco Dutra e Juliana Rojas trazem um trabalho extremamente maduro e que utilizam de forma muito hábil as metáforas de horror em uma história sobre micro relações de poder e violência silenciosa.
Chama a atenção como o filme mantém a tensão e o incômodo ao longo de toda a sua duração, e como ele vai desenvolvendo muito bem a deterioração das relações pessoais e profissionais de Helena, ao passo que quanto mais essas relações deterioram, mais os componentes sobrenaturais do espaço de trabalho (o supermercado) ficam mais evidentes.
Uma das coisas que eu mais gosto ao ver um filme é ele me permitir diferentes análises em cada revisita, e "Trabalhar Cansa" permite isso. Podemos discutir a violência silenciosa das diferentes relações de trabalho e de classes sociais (desde Helena reafirmando uma suposta superioridade sobre seus empregados ao checar bolsas ou bater de frente com Paula por miudezas, até mesmo pequenos detalhes sobre apropriação cultural e blackface na escola particular da filha de Helena). Podemos discutir sobre a insegurança financeira e do trabalho, seja no projeto empreendedor fadado ao fracasso de Helena, seja na realocação no mercado de trabalho de Otávio que soa cada vez mais inócua, seja na busca de Paula por um trabalho mais digno.
Agora você é gente
Desde o clássico dizer "o trabalho dignifica o homem" até a letra de Gonzaguinha "e sem o seu trabalho, o homem não tem honra", o filme mostra como o trabalho, em suas diferentes frentes, como o motor de relações sociais e de alocação em uma sociedade desigual e que usa a falácia da meritocracia como valor moral.
E é nesse mote da meritocracia e da precarização do trabalho que o filme trabalha a bestialização. Seja na figura monstruosa e animalesca que parece habitar o ambiente de trabalho de Helena, como uma violência nunca expressa diretamente mas latente em todas as gôndolas, seja na trama de Otávio. A cena final do filme sintetiza essa bestialização, e é interessante como em 2011 Dutra e Rojas parecem ter entendido bem como o desespero frente às relações desiguais abriram caminho para o movimento de coach, redpills e outros tipos de charlatanismo que temos hoje em dia.