Ugetsu
Contos da Lua Vaga usa o misticismo e o sobrenatural para contar sobre o sofrimento feminino no Japão medieval arrasado pela guerra civil.
Algo que Onibaba faria de forma semelhante 11 anos depois, porém enquanto Onibaba é um conto de terror sobre criaturas reduzidas a seus instintos animalescos num ambiente abandonado, Contos da Lua Vaga é um relato cruel e por vezes cru de um passado que o próprio Japão tenta esconder.
O filme traz duas histórias interligadas sobre a corrupção moral ante desejos supérfluos e suas consequências disso.
Enquanto Tōbei perde-se pelo desejo das vitórias e honras da guerra, Genjūrō é consumido pela ganância material e os prazeres mundanos.
Quase que na estrutura de fábulas, as histórias mostram dois homens comuns do Japão feudal se afastarem de suas famílias e ocupações tanto em consequência da guerra mas, principalmente, por consequência de si mesmos. A esposa de Genjūrō, Miyagi, diz que os homens mudaram com a guerra. Mas o quanto as atitudes deles são consequências da guerra ou o quanto a guerra é consequência das atitudes deles?
Mas, se são os homens que fazem as escolhas erradas, são as mulheres que sofrem mais. Seja na guerra, seja nessa fábula de Mizoguchi.
O sucesso sempre vem com o preço em sofrimento.
Ao seguir irresponsavelmente seu sonho em se tornar um grande samurai, Tōbei deixa sua esposa, Ohama, sozinha tanto física quanto financeiramente. Não tarda que o pior aconteça.
Os estupros seriados, os sequestros de mulheres e sua transformação em prostitutas (as "mulheres conforto", como eram conhecidas) de forma coercitiva é um dos mais chocantes crimes de guerra do Império Japonês, e que até hoje o país reluta em reconhecer.
O filme a todo momento mostra a violência brutal com essas mulheres. Mais do que o abandono de Tōbei, a desgraça de Ohama é sobre a desgraça de toda uma geração de mulheres escravizadas e violadas repetidamente por homens e pelo Estado. Mizoguchi, cujo filme anterior é considerado pró-guerra, parece aqui pedir desculpas não por si, mas pelo seu país, ao mostrar tão verdadeiramente e brutalmente o que essas mulheres sofreram.
Um erro para um homem, talvez, mas para uma mulher, muito pior.
Genjūrō se perde na ambição material de dar uma vida confortável à esposa Miyagi e ao filho pequeno. No começo, ele negligencia seu filho, sua esposa e depois a si mesmo no esforço de não perder suas cerâmicas quando sua vila é atacada. Mas o mais cruel de tudo ocorre quando conhece a misteriosa Lady Wasaka.
A figura mítica e trágica do filme, Wasaka é a personificação do espírito feminino puro e ingênuo. Apaixonada por Genjūrō, ela lhe apresenta o mundo dos prazeres e do luxo, e ele rapidamente esquece de sua mulher e filho. Quando cai em si, é quase que tarde demais: Wasaka também está desgraçada por ele, enquanto Miyagi deu seu último suspiro pela sobrevivência do filho.
Aqui, a figura sobrenatural não é vilã, e sim vítima do sistema patriarcal. Wasaka é vítima da guerra. Miyagi também. Wasaka morreu jovem, ansiando por conhecer o amor verdadeiro. Miyagi morreu no desespero, ansiando pelo retorno do marido. Ambas amaram e confiaram em Genjūrō, que falhou com elas. Porém o erro dele reverbera bem mais forte e doloroso sobre essas mulheres.
Este mundo é uma residência temporária, onde vamos chorar até que a madrugada venha coberta pelas ondas.
Esteticamente, o filme é uma obra de arte. As cenas da viagem de barco sob a densa névoa e as passagens de Lady Wasaka pelo mercado são hipnotizantes, poéticas; um contraste com as cenas brutais de invasões, pilhagens e assassinatos perpetrados por samurais.
Um dos grandes pontos altos do filme é a trilha sonora, onde ritmos típicos do Japão embalam letras profundas, que parecem já antever as desgraças que decorrerão ao longo do filme.
Por fim, Contos da Lua Vaga é um filme maravilhoso, poético e brutal que é uma crítica forte ao Japão feudal e seu tratamento desumano a mulheres, mas é também uma fábula atemporal sobre o sofrimento feminino em um mundo ainda ditado por homens, onde os erros dos mesmos recaem em dobro sobre elas.