



***“Don’t you ever sweat?” “Never” **** 12 Angry Men* é um dos filmes mais complexos que já vi. Muitas abordagens são possíveis — e ainda mais foram feitas —, mas creio que talvez a mais importante, e menos tratada, seja a abordagem de classe, ou melhor, a luta de classes. As leituras mais comuns — a desconstrução do processo democrático, a busca pela verdade — não são falsas, mas param na superfície do sistema. E é exatamente essa superfície que o filme usa para esconder o que está embaixo. Como homenagem a esse filme e ao carinho que tenho por ele, ofereço essa resenha como exercício de um grande afeto. *12 Angry Men* é, acima de uma desconstrução do processo democrático (jurado n. 11), acima de uma luta pela busca da verdade (jurado n. 8: Davis), uma demonstração das contradições sociais nos Estados Unidos dos anos 50. *12 Angry Men* é uma luta de classes. O filme se inicia com o descaso da classe média para com a vida de um jovem periférico — afinal, o tema do filme —, cuja lógica perdura na duração dos diálogos maiêuticos de Davis com os outros jurados. A pouca vontade dos jurados para com a verdade do caso cedia a outros impulsos: ver o jogo das 20h; não pegar chuva; não perder tempo; não aguentar o calor da sala de deliberação. E a vida do acusado perdia valor frente a esses impulsos. A análise de cada perfil sofístico no filme é possível, mas, verdadeiramente, poucos se destacam. Davis como o único dissidente da classe média. O n. 11, ignorado — mesmo concordando, inicialmente, com a acusação — por seu papel como imigrante; creio que o n. 11 acreditava mais no “sonho americano” do que muitos naquela sala, e era exatamente por isso que precisava acreditar na culpa do réu: absolvê-lo seria admitir que o sonho tem um preço, e que quem paga são os que nascem no lugar errado. E o n. 5 — talvez o caso mais doloroso do filme. Oriundo da periferia assim como o rapaz acusado, ele entrega seus ideais para integrar a classe dos acusadores, agindo como subalterno à dominação de classes. Não por maldade, mas por sobrevivência simbólica: alinhar-se aos poderosos é a única forma de escapar, ainda que ilusoriamente, do lugar de onde veio. Condenar o réu era, para ele, uma forma de dizer *“eu não sou ele”* — e é aí que o sistema se perpetua, quando os de baixo viram guardiões dos de cima. A convergência de posições não foi congregada por uma visão comum, mas pelo apagamento social previsto pela estrutura econômica. O defensor público sem motivações para vencer o caso, a polícia pronta para incriminar o rapaz e o júri deliberado antes mesmo de entrar na sala não são coincidências, mas engrenagens de um sistema feito para punir os mais pobres — é Foucault em sua análise do sistema punitivo como produtor de criminalidade, não como resposta a ela: a prisão não existe para corrigir o crime, mas para administrar e marcar os corpos que o sistema já decidiu que são perigosos. A deliberação daquela sala previa não a condenação de um rapaz, mas a de um povo. A grande questão apresentada no filme é: por que Davis? Afinal, sua disposição em favor do acusado era enxergada pelos outros como uma ruptura social. Demonstrar sentimentos, afetos ou a mais básica das expressões empáticas foi tida como um desregulamento da ordem — porque era. Davis não era apenas um jurado dissidente; era um corpo fora do lugar, alguém que se recusava a reproduzir a indiferença que mantém a estrutura de pé. De forma necropolítica, a visão dos jurados — em sua maioria de classe média e classe média alta — era a de que seus hobbies e compromissos valiam muito mais do que a vida do réu periférico. No senso comum daquela sala, a deliberação era desnecessária: o pobre é culpado do maior delito possível, veio ao mundo com um pior endereço. A cadeira elétrica era, então, o destino certo daquela alma, não fossem os esforços de Davis, que, um por um, convenceu os outros jurados. O embasamento de seus argumentos ressalta a lógica, sem sombra de dúvidas. Entretanto, para além de uma superficialidade cinematográfica, Davis desconstrói preconceitos — tanto nos jurados quanto nas testemunhas. A visão da mulher que queria parecer atraente em sua primeira aparição pública; a velocidade do senhor idoso que, após décadas de apagamento social, queria se sentir ouvido e importante pela primeira vez; e a prepotência da polícia ao prender e interrogar um jovem diante do corpo do próprio pai, condenando-o por ser pobre e, portanto, culpado do pior dos crimes: ter nascido no endereço errado. A verdade é que o jurado n. 4 — tão analítico e pragmático — suar pela primeira vez após ver seus argumentos, sua indiferença e seus preconceitos serem desmantelados não é prova do calor da sala, mas de que a maquiagem de distanciamento da classe média para com a miséria se derretia. A lógica de Davis pode ter se valido da desconstrução argumentativa para enfrentar seus adversários — mas a realidade é que Davis forçou os outros jurados, e a indiferença do sonho americano para com os corpos que deixou para trás, a verem aquele réu como gente. *12 Angry Men* é luta de classes quando escancara no rosto de uma elite preconceituosa as verdades da miséria, quando desenha os esqueletos sobre os quais o “sonho americano” constrói seus castelos.