Buffalo '66
Logo no começo Buffalo '66 me provoca uma sensação estranha de fantasia, memória e trauma. Quase como se fosse algo irreal com aqueles ângulos mais íntimos das câmeras, as cores frias, as fotos do Billy.
Martin Scorsese disse uma vez que filmes se comportam como sonhos febris ou devaneios induzidos por drogas. Buffalo '66, de Vincent Gallo, parece ter captado bem essa essência. Os momentos socialmente desconfortáveis, a aparência angelical e docilidade/dependência de Layla, a solidão sufocante de Billy. Tudo soa como um sonho melancólico do qual não se pode acordar.
Acho que o mais importante no filme não seja nem a trama do sequestro, já que logo é ficado para trás. Acredito que o que realmente importa é a relação de Billy com Layla.
Layla não parece uma pessoa real, é quase como se ela fosse uma "projeção emocional". Uma figura pura, de conforto e aceitação incondicional. Aprendendo o que aprendemos sobre Billy, é nítido o quanto ele ansiava por alguém assim... Ele é um homem adulto, mas que se comporta como uma criança ferida. Talvez todos os traumas e humilhações o deixaram preso nessas explosões de raiva, necessidade de aprovação, fantasias de vingança e a incapacidade (ou medo) de criar conexões reais com outras pessoas.
Eu gosto muito de como a cidade parece vazia, sempre com poucas pessoas nas ruas, os cenários vazios e frios. Como se a cidade estivesse parada no tempo. Isso me parece refletir o próprio Billy, como personagem, estando alheio ao mundo, alienado até.
O filme parece existir em um espaço entre tudo isso: lembranças, traumas, realidade e fantasia emocional.
E apesar de tudo parecer tão distante, ainda é verdadeiro e emocional.