Frankenstein
"Na busca pela vida, criei a morte"
Muitos acreditam que o clássico de 1931 não faz jus ao livro de Mary Shelley, eu sou uma dessas pessoas. O clássico peca pela falta de profundidade, mas Guillermo Del Toro reparou todos os danos que Frankenstein de 1931 causou.
Del Toro entrega uma obra de arte, com um elenco de peso que entregou atuações primorosas. O que mais me chamou atenção foi a fotografia do dinamarquês Dan Laustsen, que já havia trabalhado com Del Toro em vários outros filmes (A Colina Escarlate, O Beco do Pesadelo, A Forma da Água), criando cenas amplas e impecáveis.
Mas o ponto forte do filme, realmente, é o roteiro. O roteiro alterna entre presente e passado, com a história sendo narrada em duas partes, por dois pontos de vista, o que ajuda a criar um dinamismo e intimidade entre o filme e o espectador.
A primeira parte, narrada pelo Viktor Frankenstein, consiste em nos apresentar o personagem e, assim como o livro, apresentar a barbaridade humana e gerar o questionamento: quem é o verdadeiro monstro?
O roteiro nos leva para a infância de Viktor, mostrando a decepção que seu pai tinha e os abusos que ele causava. Sem muita enrolação, nos é mostrado sua obsessão e devoção pela ciência, mostra também como a mentira é algo íntimo ao Viktor e o quão inconsequente ele é com suas ambições.
Na segunda parte, vemos o ponto de vista da criatura, perdida e confusa num mundo hostil, buscando amor e pertencimento. Ao mesmo tempo em que ele aprende sobre gentileza e se conecta com seu lado bom, o filme não nos deixa esquecer sua natural vocação para a violência. Como um romance gótico, tem várias analogias ao cristianismo, principalmente na relação de criação e criador, reforçando que o verdadeiro terror do filme não está na criatura, mas na arrogância de um homem que brinca de Deus sem aceitar as consequências.
A criatura lamenta sua solidão por diversas vezes, e o livro até tem uma frase que demonstra isso: "Deus, em sua piedade, fez o homem belo e sedutor à sua imagem e semelhança, mas você me fez à imagem e semelhança de um demônio. O próprio Satã tinha outros demônios como companheiros de abominação, mas você me condenou a ser abominável e sozinho." Já no fim do filme, Viktor percebe que criou um monstro não pela aparência, mas por ter nutrido o coração da criatura com a mesma decepção e abuso que seu pai passou para ele.