Angel's Egg
"O que considera precioso, deve manter dentro de você, ou acabará perdendo..."
A Obra prima de Mamoru Oshii
De início eu não achava que a animação seria tão profundamente religiosa, a um ponto em que me senti totalmente perdido na admiração daquela realidade decadente, logo no começo somos apresentados a duas figuras antagônicas, um homem sem objetivo aparente e empunhando o que seria uma arma que remete a uma espada (segurando de forma contrária em uma possível tentativa de demonstrar confiança a desconhecidos), e logo após, conhecemos a figura central de toda a obra, a menina e o ovo, e que eu particularmente interpretei como uma alegoria a Maria grávida de Jesus (e que muitos acreditam que a idade na época seria entre 12 a 16 anos, idade essa próxima a da personagem retratada), e não atoa toda a sua compostura e a forma que carrega o ovo em sua barriga já criam essa estética de uma jovem grávida, e acreditamos que de certa forma ela esteja carregando a luz e a esperança até então (talvez uma última chance de melhora em uma realidade tão distópica e decadente), e com essa apresentação, nós começamos a acompanhar a jornada diária da personagem, literalmente sobrevivendo de sobras e água enquanto explora um mundo vazio, inóspito de vida e com muita ausência de cores, e uma das características mais interessantes ao meu ver, esse visual arquitetônico maravilhoso de uma Europa abandonada, com estátuas de figuras que não reconhecemos, a impressão que passa é que estamos acompanhando o pós de alguma história grande que tenha ocorrido, e ao decorrer da narrativa vamos entendendo melhor isso, quando o personagem do homem encontra a garota, a desconfiança mútua é nítida e vemos uma aproximação gradual ao decorrer do quanto vamos explorando aquele mundo junto com eles, eu definiria a riqueza de uma criação de mundo, quando a mesma consegue te causar curiosidade e interesse em conhecê-la, mesmo que você só tenha conhecido 1% dela, e foi exatamente o que aconteceu aqui, um dos meus momentos favoritos foi quando o personagem masculino deu a entender que existiu uma ''árvore da vida'', e que ao recorrer dos dias ela foi tomada pelo ''horizonte negro'' (essa árvore poderia ser uma releitura da Yggdrasil, a árvore sagrada da mitologia nórdica, que é frequentemente descrita como um eixo que conecta os vários reinos, e que simbolizaria a conexão, a vida e a renovação, e que na animação acreditamos que tenha sido derrubada ou corrompida pelo caos, que seria representado pelo horizonte negro), eu gosto como o pouco de informação que temos de tudo aquilo, se resulta dos poucos diálogos presentes na obra e muito mais pelo seu visual/estética (que são lindos), outro momento que gosto bastante também é quando o personagem masculino recita o versículo bíblico sobre o dilúvio, dando a entender que toda aquela realidade seria resultado do que ocorreu após as chuvas de 40 dias, e logo após isso, o personagem rebate esse mesmo versículo com dúvidas, sem nos dar garantias de sua veracidade, a ambiguidade sempre presente.
"Talvez tenha sido um sonho, talvez você, eu e os peixes existimos apenas na memória de uma pessoa que já partiu, Talvez não exista realmente ninguém e só esteja chovendo lá fora, Talvez o pássaro nunca tenha existido."
E um dos detalhes pertinentes na obra e que me causaram dúvidas, foi justamente sobre a constante pergunta entre os personagens sobre quem são eles, e a resposta era óbvia, eles nunca respondem quem são por simplesmente não se lembrarem, vivem a tanto tempo uma vida mórbida e vazia, sobrevivendo com o que podem, que uma simples pergunta sobre a identidade deles se torna impossível de ser respondida até então, acredito que toda a obra se trate da interpretação do diretor sobre a ira de um Deus vingativo do velho testamento, com um mundo pós-apocalíptico alagado, silencioso e sem vida inteligente, com os soldados que caçam simbolizando a fé transformada em violência cega, os cenários representando um julgamento divino como simples monumentos a ruínas, claro que nunca realmente temos uma certeza (e nem se realmente existe alguma figura divina naquele universo) o diretor se concentra muito mais em explorar o vazio espiritual da fé quando vira perseguição e destruição desenfreada, além disso temos o senso materno como instinto primitivo do ser humano, uma potencial vida em processo se torna o bastante para que uma simples garotinha tente cuidar, como uma mãe cuidaria de um filhote, é uma atitude quase sagrada de cuidado e proteção com o ovo, de coloca-lo próximo ao ouvido, de nunca tira-lo das próprias mãos, e quando ocorre, surge o desespero e a culpa, com a destruição do mesmo gerando a possibilidade ambígua de um novo princípio (sem deixar claro se será uma realidade pior ou melhor, o que enriquece mais o filme) a destruição cria algo, mas esse algo não é importante o bastante para que nós, telespectadores, saibamos o seu desfecho, e isso nos garante maior possibilidades de outras leituras, a criação e a destruição não são opostas, mas duas faces do mesmo processo cósmico, tudo que nasce, morre, a vida só existe porque algo antes dela foi quebrado, dissolvido, ou sacrificado
Enfim, desculpem o meu super texto, não imaginei que fosse gostar tanto desse longa, recomendo para todos e garanto que não irão se arrepender.