Dogville
Uma Obra sobre misantropia, poder/dominância e principalmente sobre natureza humana e máscaras sociais (um olhar pessimista com um propósito de reflexão sobre), provavelmente o meu favorito do Lars Von Trier
Devo ressaltar que achei simplesmente genial toda a forma como o filme é conduzido, sua estética e homenagem ao Teatro Clássico, mas também não sendo uma simples homenagem vazia, ela tem um propósito na trama (o simples fato de não existirem paredes funciona como uma metáfora, nada impede que vejamos o interior das pessoas, e o que vemos é desconfortável), além de, exercitar a imaginação do telespectador em criar um cenário hipotético (ou não, já que a estética teatral é imersiva por si só), a forma como o diretor consegue transmitir a sensação de estarmos assistindo a uma peça teatral no formato audiovisual (e sendo efetivo nisso) me fascinou bastante, além da direção que transmite um tom de desconforto a quase todo instante, e de calmaria quando preciso (a direção é sempre um reflexo da condição da protagonista), preciso ressaltar o quanto gostei de todas as atuações, como todos conseguem ser complexos, odiáveis e amáveis, compreensíveis e não compreensíveis, além da mudança e desenvolvimento de toda a protagonista, eu gosto de como a misantropia é retratada aqui, essa estrutural teatral que acompanha o filme reflete a máscara social dos moradores de Dogville, o simples fato da personagem se tornar dependente deles é o bastante para nos mostrar quem cada um deles realmente é, Lars não relativiza os abusos cometidos aqui, e tudo é muito bem filmado e atuado, além da lógica óbvia, quando dado o poder absoluto a uma pessoa, ela abusaria dessa posição de poder, além de não existir um único vilão em específico aqui, mas toda a comunidade (e talvez a figura que beire essa ''vilania'' seja o próprio Tom, que por puro egoísmo é quem mais deseja ter posse de outro indivíduo, obviamente muito bem mascarado com essa persona gentil e caridosa dele, além da própria protagonista simbolizar uma figura quase angelical ali (tanto em sua beleza quanto em suas atitudes e falas, além da inicial pureza moral distoante da sua família, o que se torna irônico já que quanto mais ela demonstra empatia, mais os habitantes demonstram desprezo, o que reforça a misantropia em torno do filme), o gesto simbólico no fim significa que vemos a clara visão do diretor diante a humanidade, além de deixar nítido o ciclo de poder e dominância, quanto a protagonista exerce tal crueldade (como sendo o seu único ato de poder em todo o longa), é magnífico.
Eu resumiria esse filme como o laboratório pessoal do Lars Von Trier, excêntrico e extremamente reflexivo e filosófico, facilmente um dos melhores trabalhos do diretor.