Lost Highway
"Você e eu, somos piores do que essas putas, não é?''
Uma das frases finais que melhor resumiria a obra na minha opinião, aliás, é sempre bom relembrar que a 1 ano atrás o mestre David Lynch nos deixava e não posso ficar sem cita-lo, ele foi uma figura muito importante na minha vida, comecei a ver filmes (e muitos mainstream, como a grande maioria) numa tentativa desesperada de preencher o vazio, um ato pateticamente depressivo, mas eu nunca imaginaria que no início iria amar tanto o cinema (e a arte como um todo, o hábito de leitura e apreciação de pinturas vieram na mesma época), e um dos principais diretores que ajudaram a moldar o meu gosto por filmes foi justamente o Lynch, quando vi Eraserhead pela primeira vez fiquei simplesmente fascinado (e não atoa, foi o meu filme favorito do diretor por muito tempo, além do paralelo inconsciente que eu fazia sobre paternidade/aborto), a visão de mundo que o Lynch fazia questão de refletir em suas obras era algo tão magicamente hipnótico e onírico que me cativava, o conjunto completo já que grande parte da sua filmografia era acompanhada de ótimas trilhas sonoras em seus trabalhos (obrigado Angelo Badalamenti), e assim como um bom fã do Lynch e das suas obras, eu também concordo que não precisa haver sentido para uma obra ser boa, ser abstrato e surreal tem seu charme justamente por nos encantar e se tornar possivelmente a fantasia mais próxima para uma adulto (que não seja a criatividade infantil de quando somos crianças, e que tendemos a perdê-la com o tempo), apesar disso, inevitavelmente o meu cérebro trabalha a parte e acaba por tentar criar raciocínios lógicos em cada obra do diretor, mesmo sem necessidade, e partindo disso, eu irei finalmente me adentrar sobre o filme, desculpem esse começo enrolado.
Lost Hightway, ao meu ver, seria a obra definitiva sobre a representação radicalizada da má essência masculina no cinema
O filme é tão potente em nos deixar claro em como cada personagem atua na narrativa em prol de trabalhar a psique do seu protagonista que acabamos por nos encantar em vários elementos presentes, eu gosto como desde o início existe essa paranoia constante, a desconfiança acerca de uma possível traição, a incapacidade de lidar com o desejo do outro, o ciúmes sendo o catalizador de uma violência cíclica, fora o prazer ligado a dominância e a humilhação, temos um protagonista extremamente problemático e que todo o filme gira em torno desse sofrimento do mesmo por não suportar não possuir, mais específicamente, o ato de não possuir totalmente uma mulher (que diga-se de passagem, é representada como um objeto atraente durante todo o longa, quase que estando intrinsecamente conectada a essa compulsão sexual do protagonista, não atoa a sua presença é acompanhada de cenas sexualmente explícitas), o personagem de Robert Loggia funciona como essa figura quase que onipresente durante toda a narrativa, a maior figura de poder, controlador, manipulador e comicamente hipócrita (a cena do sermão após quase matar o civil é uma das minhas favoritas), esse personagem é tão detestável e amável ao mesmo tempo que funciona de contra ponto com nosso protagonista que nunca apresenta qualidades reais (tanto que, sua música com o saxofone soa caótica, desconfortante e barulhenta), inclusive, Bill Pullman está fenomenal aqui, mas vamos ao que interessa, eu atrelo todo esse longa ao simples fato da figura masculina como esse elemento instável e paranoico na sociedade, nas suas insatisfações e em como após o plot twist, o filme se torna outro (quase um romance adolescente genérico, e de forma proposital) visto que essa vida romantizada reflete os desejos reprimidos do protagonista, sua juventude, pais compreensivos, um lar extremamente acolhedor e condizentes com o que faz, um trabalho honesto e até a figura da namorada hipotética, mas tudo isso muda após a presença da personagem da Patrícia Arquette, a beleza hipnotizante atrelado ao desejo de posse mudaram completamente a obra de outra forma, gosto de pensar que todo esse segundo e metade do terceiro ato foram a forma da mente doentia do Fred lidar com o que havia feito, a vida perfeita se esvai após se reconectar ao seu passado e a finalmente encarar o que tinha feito, sua própria condenação mental e física, com a figura do homem misterioso interpretado pelo Robert Blake agindo quase como uma força da natureza, podendo haver várias e várias interpretações, tanto religiosas quanto psicanalítica atrelado ao superego freudiano, ah e o humor do Lynch continua maravilhoso
Enfim, antes que eu acabe fazendo a redação do Enem nessa review, só quero ressaltar o quão genial esse filme é, o quanto me marcou nesse início de ano e a falta que o diretor fará ao mundo, a sua perda será sentida mesmo após décadas e décadas, David Lynch mudou minha forma de observar e sentir o cinema.