Nostalgia
''Não sabemos o que é loucura. Elas são problemáticas, inconvenientes, nos recusamos a entendê-las. Mas certamente estão mais próximas da verdade.''
absolutamente cada cena dessa obra poderia ser facilmente uma pintura, é incrível a capacidade do Tarkovsky de criar beleza na melancolia, acho muito interessante a inserção do deslocamento do autor em sua criação, o fato do protagonista estar longe da Rússia reflete em ser literalmente o primeiro longa do cineasta fora de seu país, além do sentimento de nostalgia também ser interpretativo sobre o autor e seu país, um detalhe que vale ressaltar, constantemente o protagonista observa o telespectador com rápidas viradas de rosto em direção a câmera, um ato claro de nostalgia, o olhar pra trás constantemente, além da certa identificação entre o escritor e o Domenico, o fato de um ter prendido sua própria família em casa, também simbolizaria o protagonista que prendeu sua própria família em sua mente, em uma eterna lembrança saudosista, uma romantização da memória, uma nostalgia, gosto da sutileza do protagonista com certa repulsa ao que é sexual, o que é contraditório e irônico já que o mesmo é pai e sente falta da família, um personagem que é uma contradição ambulante e extremamente complexo (principalmente após seus devaneios com a garotinha), além do afastamento nítido da própria fé pessoal, eu acho muito interessante o único local familiar pro mesmo ser justamente uma estrutura alagada e destruída, o remetendo automaticamente a sua terra natal, sentindo um reconforto na destruição, achei o ato final belíssimo, Domenico em um monólogo maravilhoso descrevendo o quanto sente vergonha da sociedade moderna da época, em um ato extremo se ateia fogo, e logo após começamos a acompanhar a trajetória insistente do protagonista em honrar simbolicamente o ato ao Domenico, eu interpreto ambos como sendo representações do mito de Prometeu, com Domenico claramente sendo o mesmo, e entregando o fogo (vela) ao Gorchakov (humanidade personificada) com uma conclusão pessimista levando ao castigo de Prometeu (sua vergonha acompanhada do suicídio) e a autodestruição da humanidade (a morte de Andrei), claro, não penso que seja a única interpretação possível, mas a primeira que me veio em mente, o que torna o longa melhor é justamente essa lacuna de interpretação que é relativa, um dos melhores filmes que já vi.