Vampyr
O vampirismo como elemento surrealista e psicológico: um feito absurdo em 1932
Não sei exatamente por onde começar, mas absolutamente tudo neste longa me conquistou. A sua estética vazia, os elementos surreais mesclados à temática vampírica, a constante sensação de estar sendo observado — algo que se transporta tanto para nós quanto para o protagonista. Somos eternamente passivos na narrativa; nossa única opção é apenas enxergar e admirar o que está acontecendo.
É inacreditável como Carl Dreyer, ainda nos anos 1930, criou uma obra que seria facilmente idealizada no cinema contemporâneo. O filme difere bastante de obras como Drácula e Nosferatu, que possuíam traços de romantismo, ação e perseguições, além de narrativas facilmente digeríveis pelo público. Aqui temos justamente o contrário: Dreyer desafia a si mesmo e aos espectadores ao criar uma estética visual única, marcada por uma superexposição que emula aspectos fantasmagóricos, como as sombras que parecem possuir vida própria em relação aos personagens.
Há também o vazio constante daquela ambientação interiorana, povoada por personagens extremamente distintos entre si. Temos talvez um dos ápices do surrealismo no cinema — especialmente considerando que surge poucos anos após Um Cão Andaluz. O expressionismo alemão também se faz presente, mas de forma sutil. Dreyer não apela para cenários grotescos e disformes, como os vistos em O Gabinete do Dr. Caligari, optando por uma abordagem que cria a impressão de estarmos presos em um verdadeiro labirinto.
Além disso, Dreyer altera profundamente a concepção que se tinha dos vampiros — especialmente para a época, em que o carisma e o poder costumavam se sobrepor à figura monstruosa. Aqui não há sensualidade, tampouco a leitura erótica frequentemente associada ao vampirismo em outras obras. Em vez disso, o vampirismo é retratado como uma contaminação espiritual e invisível.
Talvez isso se relacione diretamente com a própria figura do protagonista, que parece transitar entre a realidade e o mundo sobrenatural — algo que me remete à figura de Caronte, da mitologia grega. É como se houvesse uma fusão entre ciência e religião, quando o sobrenatural também se revela por meio de figuras que deveriam transmitir segurança.
Ao que parece, três vampiros atuam em conjunto para obter suas vítimas sem atrair atenção indesejada: o soldado perneta que fere alguém, o médico que simula cuidados e o que aparenta ser o vampiro ancião, que de fato se alimenta. No entanto, como estamos presenciando algo que se assemelha a um pesadelo sem lógica aparente, essa ordem rapidamente se dissolve, e o que assistimos se transforma em um desfecho relativamente “satisfatório” para as criaturas.
Ainda assim, o que mais me chamou atenção na obra foi justamente a forma como Dreyer dirige o filme. Ele nos transporta para dentro dos cenários; passamos a fazer parte deles. A câmera se movimenta junto com os personagens e, de forma quase imperceptível, se reajusta em espaços completamente diferentes daqueles em que a cena começou.
Preciso admitir que esta foi a primeira obra de Dreyer que assisti, e fiquei genuinamente impressionado com sua abordagem cinematográfica. É algo muito diferente de tudo que já vi da década de 1930, e isso despertou em mim um fascínio ainda maior pelo diretor.
Além disso, o protagonista permanece em constante ambiguidade ao longo da obra. Não sabemos se ele está vivo, morto ou vagando entre os dois mundos. A leitura que mais me ocorreu — especialmente pela cena do barco — é a de Allan Gray como uma espécie de condutor entre a vida e a morte, semelhante ao próprio Caronte.
O personagem atravessa os ambientes de maneira quase fantasmagórica; conhecemos os cenários através de suas jornadas aparentemente sem rumo. Além disso, ele frequentemente acompanha personagens em processo de morte, algo que dialoga diretamente com a atmosfera do filme, marcada por essa constante sensação de travessia entre mundos.
Recomendo a obra como um verdadeiro diferencial dentro do subgênero vampírico. Um filme de Carl Dreyer definitivamente vale a experiência.