Ran
Eu nunca soube a história completa de King Lear, só o início com as filhas mentirosas e a rejeição da sincera Cordélia. Então, depois do choque no começo de perceber que eu estava vendo uma adaptação de Shakespeare, eu passei o filme inteiro apreciando as grandes escala e beleza da obra, desde a fotografia maravilhosa até o uso de cores e o esforço impecável de recriar o Japão do século XVII, mas achando a estrutura da história clássica demais, e na certeza de que o final não seria surpreendente. Hidetora perceberia a gravidade do seu erro, reconheceria Saburo como o único filho leal, e eles triunfariam sobre as víboras que eram Taro, Jiro e Kaede. MAS QUE FINAL FOI ESSE, MEU DEUS. Eu sou sempre a favor de destruir a felicidade de todo mundo da história e finalizar de maneira trágica, então é óbvio que eu achei Ran genial. A gente teve a satisfação de ver a nojenta da Kaede morta, mas não por isso ela deixou de ser vitoriosa. E que vitória espetacularmente devastadora. Tanta traição, tanto sangue, tantas lágrimas, e tudo para no final vermos a família Ichimonji aniquilada, e a única pessoa nem burra nem traiçoeira, sem vida na planície. O runtime pesa em alguns momentos, mas o final compensa. Ótima escolha pro meu primeiro Kurosawa.