BlacKkKlansman
Que filme ESTILOSO. Tem uma filmagem confortável de assistir, planos bonitos e enquadramentos que reforçam a desigualdade de raça dos Estados Unidos. As cenas entre os personagens negros e os brancos são, com frequência, complemente separadas, enfatizando as marcas históricas da segregação racial.
Vale comentar o trabalho inteligente dos figurinos: a diferença entre as vestimentas da população negra e as da população branca. Os personagens negros utilizam sobreposições, joias, roupas coloridas e diversificadas e blacks livres. Os brancos se vestem de forma muito parecida, camisetas simples e jeans, estabelecendo uma ideia de unidade. Por meio das vestes, é possível perceber que o povo negro é pluralizado, ou seja, o pertencimento e o reconhecimento dessa comunidade não se baseia em uma uniformização do corpo, mas de um mesmo desejo de justiça social. Já, para os brancos, há uma padronização, quase uma farda, fazendo um paralelo com o manto e o capuz da KKK e sua ideologia de centralização da raça branca.
Uma cena de destaque que diferencia os princípios supremacistas dos defendidos pelos Panteras Negras é quando Jerome realiza um discurso tocante, reunindo um grande grupo de cidadãos negros ativistas, reverberando o sentimento de busca por justiça e protesto a violência. Em contraposição há David Duke realizando uma congregação junto de diversos participantes da KKK, propagando valores racistas.
Protagonistas: Ron e Flip possuem um grau de paralelismo, sendo ambos marginalizados. Ron é um homem negro, o que o condiciona automaticamente a uma posição de rejeição e preconceito. Flip, por sua vez, é judeu, mas, devido a sua aparência, consegue se misturar entre os brancos americanos. O personagem de Flip é uma clara crítica a perda de identidade e das raízes familiares de pessoas imigrantes ou mestiças, quando são deixadas suas origens em troca de aceitação branca. Isso também ocorre com Ron, que consegue fluir entre uma linguagem entendida como "branca" ou "negra". É importante apontar o "black english" uma maneira própria da comunidade negra de falar, um tipo de variedade linguística derivada do apartamento radical de "pessoas de cor".
O humor é uma ferramenta muito bem utilizada, com momentos que brincam com o absurdo dos valores eugenistas e suas implicações na sociedade americana. "Mas como Ron não foi percebido?", as práticas da KKK eram baseadas imposição de atentados extremos, de modo que, serem manipulados por pessoas consideradas "inferiores" era impensável e isso é reforçado algumas vezes usando o recurso da comédia.
Minha única crítica são alguns diálogos, que são um pouco expositivos. Certas informações que já foram entendidas e contextualizadas pelo público são repetidas em voz alta, o que quebra ligeiramente a imersão.
Resumidamente, é uma obra divertida e carismática, e que não desvia da crítica principal, mostrando, por de dentro, a verdadeira ameaça e descriminação que organizações como a KKK têm sobre grupos socias diversos. Até os dias atuais, a investigação de Ron Stallworth continua umas das mais engenhosas e poderosas da história.
"Todo mundo dizia que era impossível." — Ron Stallworth (2006)
#político#resistência#preconceito