Ran
"Num mundo louco, apenas os loucos são sãos."
Que filme magnífico!
Ran, em japonês significa algo como caos ou desordem, pensando de maneira literal, isso seria relacionado aos diversos confrontos armados que se têm durante a rodagem, mas acho que o título não fala sobre esse tipo de confusão, é uma confusão interna.
Eu nunca tinha ouvido falar na obra que originou esse filme, O Rei Lear, de Shakespear, então foi realmente uma aventura pra descobrir como a história iria se desenrolar. Eu adorei todos os personagens, todos são tão profundos, tão bem desenvolvidos, são uns 7 personagens principais que conseguem ser completamente únicos e interessantes. Não sei porque vejo muito influência de O Poderoso Chefão nesse filme.
Gosto como o filme retrata as batalhas, ao invés de ressaltar os sobreviventes e vencedores, ele ressalta os corpos, toda a sanguinolência que a guerra deixa pra trás. Interessante também a discussão religiosa que o filme tem sempre como subtexto, como os personagens prezam deuses que "vão ajudar eles" mas permanecem reclusos, em nenhum momento há intervenção divina, é só o ser humano sendo inescrupuloso do jeito que ele sempre foi.
Interessante fazer um estudo sobre o ponto central do filme, como os filhos fizeram de tudo pra conseguir se sobressair e pegar as coisas que eram do pai, que segundo eles "pertenciam a eles", ignorando qualquer censo de honra.
Kurosawa aqui domina com maestria o uso das cores, elas são vibrantes, imponentes e ajudam a contar a história. Toda a ambientação no Japão feudal do século XVI é ótima, toda a atmosfera pesada que precisa está lá.
O filme é recheado de ótimas atuações, mas a que mas se realça é sem dúvida alguma a do Tatsuya Nakadai, mesmo debaixo dessa maquiagem pesadíssima de envelhecimento, ainda entrega uma atuação muito crível e entendível, essa figura do pai arrependido que tenta buscar por redenção.
Acho que comecei pelo melhor do Akira Kurosawa, uma aula de narrativa, direção, fotografia, atuações, etc. — Philippe Leão deu aulas nessa recomendação
Essa é possivelmente a melhor direção que eu já vi.
"São os deuses que choram. Nos vêem a matar uns aos outros vezes por outra, desde o início dos tempos. Eles não podem nos salvar de nós mesmos"
#em casa#sozinho