Ran
O cego que enxerga tudo com sabedoria. O sábio que se torna cego. Os deuses que desistiram da humanidade.
Ran é uma aula de de cinema em todos os sentidos. Akira Kurosawa adapta Shakespeare para o contexto japonês, mas sempre lembrando das origens da obra original. O que quero dizer é que o diretor utiliza planos longos, abertos, com o blocking em prioridade, bem como uma peça teatral. Cinema como esse está, cada vez mais, em extinção. Ademais, Kurosawa, se diferenciando dos filmes de campo de batalha, decide não individualizar a figura soldado. Em Ran, o soldado é apenas um número, assim como na realidade. O individualizado é o covarde, o líder, o general.
O uso primoroso de cores no filme coloca o espectador no centro da tensão entre diversos exércitos, mas sempre estamos situados. As cores, em Ran, servem mais à geografia que a própria locação. Nunca vi algo igual.
O arco de Hidetora não é exatamente de redenção. Diferente da vingança chegar até ele, a vingança chega até seus ensinamentos. Taro e Jiro se tornam o que seu pai, um dia, foi — tirano, teimoso, perverso. Saburo vai contra os ensinamentos de seu pai, mas a maldição no sangue dos Ichimonji os persegue como um karma, ou uma doença contagiosa. As atuações teatrais também contribuem para o lirismo que Kurosawa traz em uma adaptação de uma peça.
Três dos shots mais lindos que já vi em minha vida estão aqui.