Batman
“You’re not exactly normal, are you?”
Em um determinado momento de “Batman” Vicki Vale e Bruce Wayne tem o seu primeiro jantar juntos. Um ar incomodo dá o tom logo no começo dessa cena. Vemos os dois em lados opostos de uma mesa exageradamente longa. Inúmeras cadeiras vazias “enfeitam” o trajeto que separa o casal. Vicki se esforça para degustar uma sopa que carece de qualquer atrativo. Enquanto na outra ponta Bruce dá uma colherada atrás da outra de maneira quase que mecânica. Ela pede o sal. Praticamente gritando para que o som da sua voz chegue até a outra extremidade da mesa. Bruce se levanta e caminha até à direção de Vicki. Enquanto ela tenta assimilar incrédula todo o desconforto da situação, Bruce premasse alheio.
Esse momento nas mãos de um cineasta menor poderia gerar apenas mais uma cena burocrática para estabelecer um vínculo romântico entre o protagonista e a mocinha. Mas debaixo do olhar de Tim Burton esse momento se torna uma espécie de síntese do por que o cavaleiro das trevas é um personagem tão fascinante para ser explorado dentro da sétima arte.
É interessante ver como Burton deixa as ramificações dos traumas de Bruce transparecerem através de pequenas ações. Seja forma como Bruce casualmente faz perguntas desinteressantes para Vicki. Ou como ele parece não enxergar nada de errado em ter que atravessar toda a sala apenas para entregar o saleiro para ela. Fica claro que intimidade não é algo presente na vida de Wayne. Entra aí um dos pontos centrais da história – e provavelmente da essência do próprio personagem: A dificuldade de se conectar com alguém. De baixar a guarda e se deixar ser visto pelo outro em toda sua vulnerabilidade.
O que Burton e Keaton fazem de forma magistral aqui é expor um indivíduo que enxerga a sua própria alma como algo além de qualquer reparo. Bruce acredita estar fadado a viver acompanhado apenas de suas próprias cicatrizes. Repare na conversa entre Vicki e Bruce alguns momentos mais tarde, quando o encontro acaba sendo transferido para cozinha. Observe as sutis, mas pontuais, mudanças no olhar de Keaton, evitando um contando direto em momentos cruciais do diálogo. Quando indagado sobre sua família Bruce permanece focado no horizonte. A impressão que fica é que ele está totalmente distante de Vicki por alguns instantes. Mesmo com essa resistência, nasce uma ternura entre esses personagens.
“Vamos tentar nos Amar?”, Vicki pergunta antes do grande climax. Burton utiliza os efeitos que surgem quando a persona do Batman se tornando mais e mais dominante na vida de Bruce como uma maneira de refletir sobre o fardo de todo o artista. Que é utilizar a sua dor para (como sorte) tornar um mundo melhor para outras pessoas.
Através dessa fantasia, dessa performance, nasce uma sensação de controle. Falsa ou não, isso não importa. Ela é inebriante de qualquer maneira. Quase como um parasita. Mas necessária para existência.
“Batman” parece reafirmar que em um mundo cada vez mais cruel, cada mais implacável. é imprescindível lutarmos para amarmos nós mesmos. Assim, quem sabe, seremos capazes de encontrar coragem suficiente para aceitar o amor de mais alguém.
Em uma época aonde os filmes mais populares de super-heróis não passam de um receptáculo de nostalgia barata, prontos para ser consumido por espectadores passivos e desprovidos de curiosidade. “Batman” se torna uma relíquia que aquece o coração.
Seus mistérios guardados debaixo do capuz ainda continuam sendo revelados. Sim, houve um dia em que esse foi gênero aonde um artista no auto dos seus poderes criativos pode explorassem suas próprias idiossincrasias. Um blockbuster sobre almas quebradas em busca de redenção.
Se bem que o agora não importa tanto já que “Batman” continua vivo. Ainda nos faz sonhar.
E ainda é absurdamente romântico.
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