Anora
assistir anora pela segunda me faz ter uma visão diferente e mais profunda sobre essa tragédia que se esconde atrás de uma comédia caótica. o filme tem zero culpa pelo criticismo vazio que ele recebeu por causa de um nacionalismo alienado que preferiu rotular o filme como uma “romantização da prostituição” apenas por ter ganhado uma premiação estadunidense, o que é uma visão totalmente contrária à proposta do filme.
na primeira vista, o caos e o humor absurdo do filme tomam conta. mas na segunda vista, o peso do drama fica muito mais escancarado. a ani não é uma pessoa burra, ela só está cega pela proximidade de poder largar aquela realidade miserável em que ela vivia. ela ta a um passo de deixar de ser um objeto para se tornar uma “cinderella”. e é esse idealismo que faz com que ela tome decisões “burras” enquanto o vanya se revela um marido imaturo e imprudente.
a cena final pra mim é o ápice desse drama todo. a única pessoa que não tratou ela como um objeto ou um obstáculo durante o desenrolar do filme foi o igor, porém ela responde com grosseria e agressividade a tudo que ele faz por ela não estar acostumada a ser tratada como um ser humano de verdade. quando ela se toca de que ele não estava ali para lhe causar mal, mas sim apenas cumprindo ordens para depois ser descartado assim como ela, ani retribui a generosidade dele com sexo, pois é a única forma de agradecimento que ela conhece. e o choro final fecha toda essa historia de um jeito brutal. ela não chora de raiva por tudo que aconteceu, ela chora de desespero. o choro é a realização de que aquela vida impossível que ela tanto sonhou acabou antes mesmo de começar.