Videodrome
“The television screen is the retina of the mind’s eye.”
Tenho lido um livro que traz alguns textos interessantes sobre a televisão, e vou compartilhá-los aqui.
Fellini disse certa vez que a televisão criou uma nova geração de espectadores que ele considerava arrogantes, autoritários, neuroticamente impacientes. A capacidade de mudar de canal a qualquer hora, o que aniquila a narrativa, de prosseguir à procura de uma coisa a mais (a ideia de que imagens que eu não estou vendo estão sendo exibidas em outro lugar é intolerável), originou espetáculos de fogos de artifício que jorram das pontas de nossos dedos. O mágico controle remoto nos dá a ilusão de que essas imagens nos pertencem, de que temos poder total sobre elas, de que não existiriam sem nós. Elas são simples imagens perseguindo outras imagens, sem nenhuma esperança de tragá-las. Essa impaciência, dizia Fellini, nunca poderia ser satisfeita ou mitigada, pois não conseguimos fixar nossos olhos numa imagem antes de eliminarmos o filme a que estávamos assistindo, assim como não podemos pronunciar duas palavras ao mesmo tempo. É uma procura vã, fútil, que causa depressão e fadiga. O próprio espectador é destruído por esse papel febril. A sequência de imagens não pode resistir a ele. Despedaça-se em suas mãos. E ele afunda junto.
[...] O poder de convencimento do objeto filmado diminui. A mediocridade repetitiva de muitas séries de tevê — perseguição de carros, brandir de armas, crises familiares, corações amargurados — nos faz submergir numa tal avalanche de clichês, de imagens desvalorizadas e lugares-comuns sonoros, que nossos olhos e nosso cérebro param de prestar atenção neles e de ouvi-los. É impossível distinguir qualquer dessas imagens daquelas que a cercam. A torrente de imagens uniformes escoa vagarosamente diante de nossas retinas, sem nunca nos tocar.
[...] Mas ainda há mais: a televisão apresenta programas o mais rapidamente possível, um atrás do outro, com uma regra apenas: fique conosco.
Um dos valores mais notáveis em videodrome é a sua capacidade de realizar um body horror sem o intuito de chocar por chocar, algo realmente admirável tendo em vista como outras obras buscam sempre o impacto gratuito.
Que toda obra é reflexo da época em que foi concebida é inegável. Contudo, chega a ser espantoso o quão atuais são as reflexões sobre a tecnologia e seu uso que Cronenberg cria quarenta anos atrás.
À medida que Max assiste o videodrome, ele começa a se perder em alucinações e, consequentemente, tem sua percepção da realidade alterada. O filme explicita o processo de insensibilização: a busca por esse sadismo gera em Max uma confusão mental que passa a se acostumar cada vez mais com a bizarrice que lhe é apresentada a ponto de acreditar que é real. Os olhos que passam a enxergar o mundo unicamente através de um visor deixam de distinguir com clareza o que é real ou não. Esses mesmos olhos habituam-se à suposta realidade transmitida pela imagem, acolhendo-a como substituta da experiência verdadeira.
É possível traçar um paralelo direto entre este processo e o presente. A cena de Max sendo engolido pela tela reverbera o que ocorre hoje, quando a interação presencial é frequentemente trocada por uma intermediação de telas. A realidade se estilhaça em TikToks, Reels e Shorts, enquanto a sociedade se afunda cada vez mais nesse simulacro da realidade, tornando-se gradativamente mais alienada e manipulável. Neste processo, o senso critico esvai-se. Restam-lhe apenas a assimilação de opiniões alheias, alçadas à condição de verdades absolutas.
O desfecho do filme confirma o percurso já atravessado pelo personagem. Max há muito tempo não age conscientemente, de modo que a decisão tomada ao final não se configura como um ato intencional, mas como o resultado de um processo de controle já consolidado.
“Television is reality, and reality is less than television.”
#david cronenberg#década de 80