Barabbas
Portuguese & English review
Portuguese-
Barabbas (1961) de Richard Fleischer, por Guilherme Pinheiro.
Barabbas, lançado um ano depois de Spartacus de Stanley Kubrick, surge como o épico bíblico de Hollywood que encontrou a densidade psicológica, a violência e o deslumbre formal do grande cinema europeu.
Dentro da vaga de grandes produções bíblicas que dominaram as décadas de 50 e 60, Barabbas ergue-se como uma anomalia absoluta e talvez como a obra-prima mais complexa e angustiante do género. Produzido pelo lendário Dino De Laurentiis, realizado com uma mestria técnica avassaladora por Richard Fleischer e adaptado do romance vencedor do Prémio Nobel de Pär Lagerkvist (com argumento assinado pelo brilhante Christopher Fry), o filme recusa a piedade fácil, a hagiografia moralista e o espetáculo vazio para mergulhar numa profunda crise espiritual e existencial.
O filme começa onde a maioria das histórias da Paixão termina: no momento em que o povo de Jerusalém prefere libertar o criminoso Barabás (numa interpretação monumental e dilacerante de Anthony Quinn) e condenar Jesus de Nazaré à cruz.
A partir desse instante, Barabás torna-se uma figura maldita, assombrada pelo fantasma de um homem que morreu no seu lugar. Fleischer filma a sua caminhada não como uma conversão milagrosa e imediata, mas como um calvário trágico de décadas. A jornada do protagonista atravessa as minas de enxofre na Sicília, uma representação literal do Inferno na Terra com uma fotografia opressiva de Aldo Tonti, passa pela escola de gladiadores em Roma (com a soberba prestação de Jack Palance como o sadista Torvald) e culmina no Coliseu e nos massacres das catacumbas.
O génio formal de Fleischer é evidente em cada plano: a famosa sequência da crucificação foi filmada durante um eclipse solar real em Itália (1960), conferindo à cena uma atmosfera cósmica, aterradora e irrepetível. Ao contrário dos heróis imaculados dos épicos de Hollywood, o Barabás de Anthony Quinn é um homem bruto, confuso, incapaz de compreender o significado da fé ou do sacrifício, preso numa escuridão existencial onde a luz da salvação parece sempre fora do seu alcance. É um filme sobre o silêncio de Deus, o absurdo da violência e a dor da sobrevivência. Um triunfo monumental do cinema histórico, de uma escala estética e força filosófica inigualáveis.
English-
Barabbas (1961) by Richard Fleischer, by Guilherme Pinheiro.
Released a year after Stanley Kubrick's Spartacus, Barabbas emerges as the Hollywood biblical epic that found the psychological depth, violence, and formal splendor of great European cinema.
Within the wave of large biblical productions that dominated the 1950s and 60s, Barabbas stands as an absolute anomaly and perhaps as the most complex and harrowing masterpiece of the genre. Produced by the legendary Dino De Laurentiis, directed with overwhelming technical mastery by Richard Fleischer, and adapted from Pär Lagerkvist's Nobel Prize-winning novel (with a screenplay by the brilliant Christopher Fry), the film rejects easy piety, moralistic hagiography, and empty spectacle to delve into a profound spiritual and existential crisis.
The film begins where most Passion stories end: at the moment when the people of Jerusalem choose to free the criminal Barabbas (in a monumental and heartbreaking performance by Anthony Quinn) and condemn Jesus of Nazareth to the cross.
From that moment on, Barabbas becomes a cursed figure, haunted by the ghost of a man who died in his place. Fleischer films his journey not as a miraculous and immediate conversion, but as a tragic ordeal spanning decades. The protagonist's journey traverses the sulfur mines of Sicily, a literal representation of Hell on Earth with oppressive cinematography by Aldo Tonti, passes through the gladiator school in Rome (with a superb performance by Jack Palance as the sadistic Torvald), and culminates in the Colosseum and the massacres of the catacombs.
Fleischer's formal genius is evident in every shot: the famous crucifixion sequence was filmed during a real solar eclipse in Italy (1960), giving the scene a cosmic, terrifying, and unrepeatable atmosphere. Unlike the immaculate heroes of Hollywood epics, Anthony Quinn's Barabbas is a brutish, confused man, incapable of understanding the meaning of faith or sacrifice, trapped in an existential darkness where the light of salvation always seems out of his reach. It is a film about the silence of God, the absurdity of violence, and the pain of survival. A monumental triumph of historical cinema, of unparalleled aesthetic scale and philosophical force.