De todas as adaptações de Fausto, esta do diretor tcheco Jan Švankmajer é de longe a mais doida e interessante.
O primeiro ponto a ser levado em consideração é que aqui não estamos falando somente do famoso Fausto de Goethe, mas também sobre a versão de Marlowe, onde o protagonista é mais hedonista e não tem salvação da sua alma, diferente da clássica odisseia filosófica perpetrada pelo protagonista do texto de Goethe.
O segundo ponto é que o título original ("Lekce Faust") pode ser traduzido como "A Lição de Fausto", indicando que não se trata de uma adaptação do conto na íntegra, mas sim voltado a um componente específico, no caso as consequências morais da escolha de Fausto em vender sua alma ao diabo.
Considerando a influência da obra de Marlowe, o filme trabalha muito com o tema da manipulação. Todas as escolhas do filme se tratam sobre manipulação em diferentes formas: a ambientação numa peça de teatro, as ações advindas do texto já pronto, o uso de marionetes (e o enfoque constante nas mãos que as guiam), a dublagem da ópera, as reações passivas do protagonista aos acontecimentos e ordens estranhas ao qual é submetido. O filme brinca com os diferentes contextos de encenação e falta de agência para mostrar como Fausto cai na manipulação sobrenatural de uma forma tão fácil quanto catártica.
Petr Čepek está muito bem como o protagonista, um Fausto (e não o Fausto) insatisfeito com seu cotidiano solitário e desgrenhado em uma República Tcheca pós comunista de pouco encanto. O mundo externo é frio e burocrático, a magia está nos estranhos corredores de um prédio em decadência onde a magia e o diabólico acontecem.
Os efeitos visuais são ótimos, variando diferentes entre stop motion e animação de objetos. Há também a combinação de marionetes e atores reais.