The Father
Quando eu decidi reassistir 'Meu Pai', eu tive medo de que o filme fosse perder seu brilho, de que ainda fosse cedo demais para revisitar um filme tão elevado na minha memória. Eu escrevo isso ouvindo a trilha da cena final, com as bochechas ainda úmidas de tanto chorar e soluçar. Soluçar e chorar tanto que eu tive que pausar o filme para abraçar uma almofada, e conter meu desespero dentro dela. O Anthony lembra tanto meu avô, eu não sei como meu pai conseguiu assistir esse filme sem paralisar eternamente no sofá. Que obra-prima.
É lindo, quase metalinguístico, ver Anthony Hopkins, geralmente tão estoico ou imponente em filmes como 'Silêncio dos Inocentes', 'Encontro Marcado', 'Um Crime de Mestre', 'Thor', e 'Vestígios do Dia', aqui tão frágil. Muito já se falou dele, e merecidamente, visto que é a melhor atuação de seu longo currículo, e uma das melhores da história do cinema, mas pouco se fala da outra linda performance de The Father. Anthony Hopkins não é o único a entregar a melhor performance de uma carreira, porque Olivia Colman faz o exato mesmo. Nas palavras, Anne diz pouquíssimo; com os olhos, Olivia nos comunica um oceano de preocupação, conflito, amargura, amor e melancolia. Ela eleva a tragédia do filme de maneira imensurável.
Palavras realmente não descrevem tudo que Anthony e Olivia fazem aqui. Elas podem descrever as qualidades técnicas do roteiro em suas repetições e ciclos e mudanças sutis, mas também bruscas; a genialidade que é o set design - seja a decoração do apartamento que muda, seja a nursing home que imita o corredor do flat, seja a porta do consultório que é exatamente a mesma do prédio; a brilhante sacada dos atores se alternando - Olivia Williams sendo aqui a filha, ali a cuidadora, acá a enfermeira, e o marido sendo Mark Gatiss ou Rufus Sewell. Toda essa orquestra de fatores criada para gerar no espectador a confusão que o Anthony sente é brilhante, mas 'Meu Pai' só é o que é graças à dupla de interpretações que eu já tanto elogiei. Tudo isso culminando naquela devastadora cena final, cruelmente elevada pela trilha de Ludovico Einaudi para aumentar toda a dor. Imediatamente adicionado a meus four favorites.