Monster
Assistir esse filme mais uma vez depois de dois anos é uma experiência realmente refrescante. Monster (2023), dirigido por Hirokazu Koreeda, é uma obra de arte sensacional que engana, mente e ilude seu público da melhor maneira possível. É um filme que, apesar de difícil de descrever, é uma das coisas mais lindas que já assisti. Queria ressaltar que essa resenha vai ser um pouco diferente, um pouco mais livre que as que costumo fazer.
Monster retrata uma mesma história por 3 pontos de vista diferentes: o de uma mãe muito preocupada com os comportamentos estranhos de seu filho pré-adolescente, o do professor desse filho (que parece ser o responsável por essa mudança repentina), e o da criança.
A cinematografia do longa é muito bonita e delicada. Os planos são tanto leves quanto pesados. A saturação de cores, principalmente o azul, o verde e o amarelo, traz um ar infantil e nostálgico, que contrasta com a filmagem menos colorida e mais escura durante a visão dos adultos. É visível que Monster é muito mais visual do que textual, ou seja, a imagem diz muito mais do que as palavras em si. Essa característica se relaciona diretamente com o conceito de verdade e quem a detém, pois cada entendimento dentro do filme é uma realidade individual a partir dos olhos, o que significa que parte significativa do papel das palavras se baseia na mentira, na desinformação e no burburinho. Durante o longa, muitas coisas não são ditas, muitas perguntas são feitas, algumas respondidas e outras não. São buracos deixados em aberto na trama de maneira proposital, um recurso que abre margem para imaginação, uma vez que na vida real nem tudo é possível descobrir, nem tudo é claro, e nada é imparcial. Nesse sentido, ocorre um fenômeno chamado Efeito Rashomon, que, de acordo com a Wiki, “é uma expressão usada para descrever uma situação na qual não se pode saber o que de fato aconteceu devido aos diferentes julgamentos das pessoas que a presenciaram, já que cada um interpreta o ocorrido de forma pessoal.”
Na visão da mãe, Saori Mugino, vivida pela maravilhosa Sakura Ando, tudo que ela acredita que seu filho está sofrendo na escola parece ser negligenciado pela instituição, parece ser encoberto pelas forças burocráticas, a fim de preservar a imagem da escola. Nesse sentido, o tratamento que essa mãe recebe não parece humano, ao ponto de suas reuniões com os superiores da escola serem extremamente claustrofóbicas, desconfortáveis e artificiais. O meu sentimento de injustiça só crescia durante essa parte, uma mãe solteira tentando de tudo para entender e defender o próprio filho, mas não conseguindo nenhum apoio.
Na visão do professor Hori, interpretado por Eita Nagayama, já são reveladas novas informações sobre toda aquela situação. O “professor violento” era na verdade inocente, apenas um trabalhador que se envolveu em contradições não intencionais, provocadas por um grande efeito dominó de falta de comunicação. Nessa perspectiva, fica entendido que o filho daquela mãe do começo pratica bullying com outro garoto, o que, mais uma vez (só que de outra forma), gera um sentimento de injustiça. A partir das diversas fofocas geradas pelos alunos e pelos professores, a polêmica da suposta agressão do professor Hori destrói sua vida profissional e pessoal.
A terceira parte de Monster é uma verdadeira anagnórise, recurso narrativo que se refere ao reconhecimento pessoal de um personagem que gera uma mudança na visão da audiência sobre uma história. É na visão do filho pré-adolescente, Minato Mugino, vivido pelo charmoso Sōya Kurokawa, que o cerne dessa situação é revelado. As relações burocráticas são deixadas um pouco de lado, focando num plano interpessoal infantil. Minato, devido ao ambiente de bullying escolar que estava inserido, foi passivo à discriminação sofrida por seu colega de classe Yori Hoshikawa, interpretado pelo fofíssimo Hinata Hiiragi. Nesse ponto de vista, entendemos o que aconteceu: Yori e Minato são crianças que nutrem sentimentos românticos entre si. Apesar da linda amizade dos dois, a vergonha de ser quem são de verdade complica essa relação: Yori sofre bullying devido à sua aparência mais jovem e por andar com as meninas e Minato não interage publicamente com Yori, para evitar rumores. Além disso, a ideia de “formar uma família” e de “ser homem” causam ainda mais ansiedade no confuso Minato. Assim, no meio do mato verde, afastado da área urbana e sem vida humana, dentro de um trem abandonado, Yori e Minato fazem o próprio universo. Nesse trem, as crianças transformam um ambiente inóspito em um lugar com brincadeiras, memórias e sentimento, um lugar em que os dois podem ser eles mesmos, sem performances.
Tem um elemento de extrema importância na narrativa que se refere à uma fala cruel do pai de Yori, interpretado por Nakamura Shidō, sobre o próprio filho: “Ele é um monstro. O cérebro dele não é de humano, é de porco. É por isso que planejo transformá-lo novamente em humano.”. O significado dessa frase é que, devido às tendências homossexuais de seu filho, seu cérebro é de um animal e ele deve ser curado. A ideia do “cérebro de porco” é extremamente desumana, ainda mais quando direcionado à uma criança. Essa afirmação é dita muitas vezes no filme para indicar momentos de homofobia internalizada pelos garotos. Yori é aparentemente uma criança normal, mas, na realidade, teve sua infância completamente corrompida pela violência física e psicológica que sofre do pai alcoólatra, além de omitir seus sentimentos e não denunciar o bullying sofrido na escola.
Outro ponto muito relevante é a morte, que está presente em diversos momentos. Monster retrata a morte a partir da religiosidade budista, em que morrer é um ato natural da existência e que, com um funeral minimamente digno, a alma daquele ser renasce posteriormente em outro corpo. O respeito pelos mortos é exemplificado de diversas maneiras: no altar com a foto do pai de Minato, que faleceu antes dos acontecimentos do filme, e no enterro que as crianças fazem para um gatinho para que ele tenha a oportunidade de uma pós-vida. Nesse contexto, a cena final é muito ambígua: pode ser um sonho, uma fantasia, um delírio, uma mentira, ou até mesmo a tal da morte. Digo isso, pois depois de tudo o que ocorreu no filme e depois de tantas menções à morte, crianças brincando em um mato verde com um sol brilhante após uma tempestade pode ser interpretado de milhares de formas. Seria a morte a libertação final para esses meninos? Seria a morte a felicidade verdadeira que eles nunca encontraram em vida? Nunca saberemos.
Logo, Monster não é um filme qualquer, é uma pérola em um oceano cinematográfico. É uma obra sensível e muito bem amarrada, mas que nunca te responde todos os questionamentos, pois seu intuito é muito mais a construção de que histórias possuem diferentes versões. É isso que torna nossa vida tão complexa, tão imprecisa e tão imaginativa.
#amadurecimento#dramático#lgbt+