''Ele me leva pra caçar Geci, só eu e ele...''
''Cielle, isso não acontece só contigo, mas vai passar''
Ah, o que dizer de um episódio estendido do Globo Repórter?
Não me interpretem mal, a temática é de suma importância que seja resgatada e debatida sobre, mas aqui, o que há para debater? quando a própria linguagem da obra se aproxima bem mais de um documentário do que cinematográficamente, tanto a decupagem quanto a mise-en-scène se aproximam dessa leitura superficial e sensacionalista de um documentário televisivo, o filme confia excessivamente no ''real'' como força dramática, o que ocasiona na sua recusa em se posicionar enquanto obra cinematográfica, ocorrendo um contraste absurdo na dicotomia dos seus personagens, ou são bons, ou são maus, com as figuras majoritariamente masculinas sendo posicionadas aqui como antagônicas, ausentes e excessivamente estereotipadas, o que corrobora e reforça uma visão misândrica de parte de uma população cansada, receosa e revoltada com os crimes cometidos e retratados aqui, a obra se compromissando com a interpretação realista acaba por abdicar de sua potência enquanto construção cinematográfica.
E Deixando um pouco de lado as formalidades técnicas, é uma obra que se sustenta muito no sofrimento das vítimas sem nunca se aprofundar de fato nas raízes estruturais desses problemas, do que ocasiona tais crimes, e principalmente, de como a diretora parece querer se apoiar exclusivamente nisso, ao que deu a entender, esse trauma imposto a protagonista seria um catalisador que resumiria toda a sua vida, a injustiça, além do final reforçar essa leitura de que ''a justiça é falha, logo, resolva sozinha'', o mais próximo que chegamos a ter de uma personagem complexa e fragmentada por traumas, é justamente da Mãe (Fátima Macedo), a sua relutância em crer nas barbáries cometidas por seu marido, em parte do seu ódio interior tanto por ele, quanto pela própria filha, de como se sentiu injustiçada e traída pela justiça e força policial, mas nunca há de fato um aprofundamento em seu intrínseco, o mais próximo que temos disso, é justamente de um final falsamente catártico, a vingança ocorre, sem planejamentos, sem cerimônias, e não há um alívio real (até porque, o que seria pra protagonista se livrar de um monstro, quando a própria está cercada por milhares?) eu sinto que as intenções da autora eram sim boas, além de repercutir os casos que haviam sido falados durante essa época, e que ganharam maior foco pelas mídias também (mas que assim como toda e qualquer tragédia que ocorra com frequência em lugares específicos, foi esquecida até que os influêncers sintam que o algoritmo irá recompensa-los por se aproveitarem de momentos assim)
Quero que entendam também que não é preciso (e nunca foi), ter sido vítima de um horror do tipo para que se possa opinar sobre, claro que haverá maior peso para as pessoas que sofreram de tal forma, mas isso não limita a obra somente a opiniões dessas pessoas (se fossemos seguir essa lógica, todas as pessoas que não fossem judias, não poderiam opinar sobre filmes que retratem os horrores do holocausto durante a segunda guerra, é um argumento falho e só é usado por adolescentes no Twitter)
O Tema retratado na obra é de uma importância absurda para nos contentarmos apenas com uma interpretação superficial e caricata (além de ofender pessoalmente os moradores locais)
E Não, eu não irei dar notas altas para absolutamente todos os filmes nacionais existentes, diferente de uma parcela do twitter que praticam quase que religiosamente tal rito, é de uma filha da putagem se abster de uma opinião própria em prol de uma torcida para premiações na espera de que as obras do nosso país tenham reconhecimento, isso é muito mais prejudicial do que realmente efetivo, desculpem pelo tamanho do texto, eu estava com uma curiosidade e uma expectativa muito alta para esse filme, e me frustrei muito...