A presa, como sempre de costume, é conduzida no cortejo triunfante. Chamam-na bens culturais. Eles terão que contar, no materialismo histórico, com um observador distanciado, pois o que ele, com seu olhar, abarca como bens culturais atesta, sem exceção, um fundamento que ele não pode considerar sem horror. A existência desses bens não se deve somente ao esforço dos grandes gênios, seus criadores, mas também à corvéia sem nome de seus contemporâneos. Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie Há algo mais ou menos implícito nesse trecho de Benjamim: o horror diante da barbárie contida nas obras de arte vem como uma revelação. A última frase é icônica pelo efeito de choque diante do desvelamento de algo que estava oculto. Isto é, por trás do "cortejo triunfante", por trás de um virtuosismo técnico, de um engrandecimento moral, de um deslumbramento estético, existe toda uma série de disputas e ímpetos violentos que serão determinantes para a produção e o prestígio de uma obra de arte, cujo brilho ofusca a cor do sangue derramado por trás.
Mas então, o que dizer do horror? Apesar do seu imenso prestígio, o horror continua figurado como um "nicho", como algo cujo valor está à parte do resto, na margem das grandes obras. Muitos não veem nada mais que uma coletânea de vulgaridades, e mesmo o cinéfilo (ou leitor) mais fanático pelo macabro comumente encarna a postura de distinguir uma coisa da outra:
Os grande filmes são esses aqui, já esses outros são os grandes filmes do horror. -------
A moda dos chamados "elevated horror" da década passada foi muito criticada pelos fãs do gênero justamente por estes perceberem o que estava por trás do termo: um apagamento do horror em prol do drama. Ora, desde suas raízes góticas o terror esteve intimamente relacionado com o peso dos dilemas do drama, e não fazia o menor sentido criar um termo novo para algo que sempre esteve ali (ainda que fosse perceptível um grande recuo da extrema violência que marcou o gênero nos anos 2000). Mas não se tratava de um desconhecimento da história do gênero por trás desse termo, a questão era outra.
Se o prestígio de uma obra de arte gera esse "brilho que ofusca a cor do sangue por trás", o horror faz algo diferente, algo que justifica esse afastamento das "grandes obras". Como dois polos extremos que representam um gradiente de tendências do gênero:
a) Num polo, suas produções mais vulgares e de mal gosto, geralmente aquelas onde a violência se reduz à simples função de fetiche macabro. Não há brilho nem nenhum: resta apenas a cor opaca do sangue vermelho que ofende a cultura num grito que afirma a existência dos impulsos mais baixos presentes no seio dela mesma
b) No outro polo, trabalhos mais elaborados, aqueles que de fato utilizam da forma para articular ideias. Esse brilho encantado das obras de arte está ali presente, mas não ofusca a cor do sangue: ao contrário, é o próprio brilho que tem cor de sangue.
Nos dois casos, o horror desnuda o virtuosismo da cultura e nos apresenta a barbárie com franqueza. Por isso a necessidade do apagamento do horror no termo "elevated horror", e não é atoa que o cinema de horror tem ficado cada vez mais conservador de lá pra cá.
Mesmo nos seus primórdios góticos, a outra face da pureza e da virtude é o desejo proibido e a maldade. Se é fácil lidar com os exemplos mais extremos do polo (a), cujo apelo só existe para aqueles que compartilham dos mesmos fetiches sinistros e que são devidamente rejeitados pelo resto com repulsa, as coisas se complicam no polo (b), pois é no polo (b) que o encantamento com esse brilho cor de sangue se reconhece como encantamento pela barbárie que tende a ficar escondida.
(não é raro que um filme de ação esconda seu barbarismo sob o véu do heroísmo, da coragem, do sacrifício que visa um suposto bem maior, mas um filme de terror tende a expor sem rodeios tanto o aspecto fetichista da barbárie quanto uma sede de revolta diante da cultura hegemônica -> tetsuo the iron man vem em mente como um perfeito exemplo que condensa ambas as coisas)
(e é claro que existem filmes de terror extremamente reacionários que buscam esconder suas intenções atrás de mil moralismos, mas exaltar uma obra ideológica de guerra ou de romance tem muito menos peso que exaltar, sob esse viés moralista, um filme que a todo momento insiste em filmar suas sombras -> um caso explícito: impossível levar a sério as justificativas idiotas de Jigsaw sobre seu sadismo)
"É de suspense ou de terror?" Pergunta que revela até que ponto alguém está disposto a perceber-se como capaz ficar cara a cara com a barbárie da cultura, pois é muito confortável acreditar que só aquele que é diferente de mim tem essa capacidade.
Trata-se de algo grotesco, mas a questão é justamente encarar isso de frente, sem recusa: encarar aquilo que surge em nós como grotesco, seja em nossa capacidade de cometer a barbárie, seja na barbárie que é cometida contra nós, aquela onde a própria cultura aponta seus dedos para nós e diz "você é o signo do grotesco, não merece nosso suporte" (reflexão principal de todo bom body horror, e não é atoa o sentimento de revolta que perpassa esses filmes).
A grande força do terror é nos provocar com a seguinte questão: diante de tudo isso, diante daquilo que é macabro e que me diz respeito, que fazer?
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Exorcismo Negro é uma profunda reflexão sobre essa pergunta.
O filme acompanha seu próprio diretor, José Mojica (imortalizado como Zé do Caixão), visitando a casa da família de um amigo enquanto busca por inspiração para seu próximo filme (justamente o filme que estamos assistindo)
Primeiramente, sobre essa relação entre cultura e barbárie, a narrativa de magia e possessão se sustenta sobre um profundo mal-estar doméstico: segredos e intrigas íntimas, pecados geracionais, promessas de casamento arranjado, um avô que poderia tanto estar possuído quanto acometido por algum quadro demencial, uma criança vulnerável diante da confusão disso tudo (ela não entende o que está acontecendo, mas sente os efeitos disso tudo muito mais que todos os outros - como o último plano deixa claro).
Não é atoa que é pra lá que Mojica vai para buscar inspiração. As cenas de Mojica vagando pela casa, observando embasbacado estranhos fenômenos, poderiam se confundir com cenas que nada mais nos mostram do que seu processo criativo: Mojica vê o avô possuído quando ele poderia muito bem apenas estar em surto; uma conversa macabra nada mais é do que uma conversa suspeita que Mojica observa à distância. Por cima desse embrulhado de dilemas tipicamente culturais, o filme só precisa imprimir o signo da bruxaria por cima desse drama: a barbárie já está ali, borbulhando, basta uma ou outra caveira para que tudo aquilo se torne um "filme de terror". Não é curioso que as cobras apareçam justamente penduradas numa árvore de Natal?
Num segundo momento, muito mais importante do que a reflexão sobre a barbárie da cultura, vem a reflexão do próprio Mojica sobre seu papel nisso tudo.
A invenção de Mojica: Zé do Caixão, o mais sádico, o mais maléfico, o suprassumo da maldade em pessoa, personagem que, em toda a dimensão metalinguística que Mojica confere à esse mito ao longo de sua obra, poderia destronar Satã e eternizar-se como o Mal Absoluto (projeto proclamado pelo próprio).
E do outro lado, a insistência de Mojica em afirmar "Zé do Caixão não existe, é uma invenção, uma besteira da minha cabeça".
Será mesmo? Afinal de contas, que significa esse processo criativo de Mojica? A cada escândalo que ocorre na casa da família, aquele José Mojica Marins tão educado e culto, subitamente, levanta a sobrancelha, mexe nas mãos de modo sinistro, etc etc... Diante da calamidade, são os trejeitos do Zé do Caixão que tomam conta de Mojica sem que ele mesmo perceba. É a barbárie se revelando sob a civilidade da cultura. Cada um desses gestos de Mojica que revelam a presença do Zé do Caixão dão a impressão de que é o próprio Mojica o causador daquele caos. Aqui existe uma ambiguidade: sabemos que no nível da narrativa dramática, este não é o caso, mas a presença do Zé do Caixão perfura esse nível e mergulha numa dimensão metalinguística onde sim, é ele mesmo a causa disso tudo, afinal de contas é ele o autor daquela história.
Esse jogo dialético entre narrativa dramática e metalinguística encontra seu limite na icônica cena onde Mojica fica cara a cara com o próprio Zé do Caixão. Mojica gritando em negação "você é apenas uma invenção!! você não existe!" A resposta do Zé do Caixão é a seguinte: "não existo? então veja isso" e daí pra frente uma sequência de torturas. A resposta parece mais dizer "não existo?? então veja isso, Sr Diretor do filme, veja o que VOCÊ é capaz de filmar" (e consequentemente, o que nós, espectadores, somos capazes de assistir).
O que mais importa aqui é o momento onde Zé do Caixão se faz ser reconhecido por Mojica e como Mojica. E se Mojica recua num primeiro momento, logo se levanta e combate aquele Mal Absoluto que vem dele mesmo. Daí que se levanta e grita "sai Satanás!! Deus tem poder" etc etc.... Algo cômico, algo que quase não da pra se levar a sério diante da dimensão macabra que o filme teve até ali (tal qual as justificativas de Jigsaw nos soam ridículas). Mas por trás desse artifício cômico existe um movimento ético importantíssimo: a ênfase aqui é menos nas palavras de ordem cristãs e mais no fato de que, através desse artifício (cinematográfico?), Mojica salva a filha caçula da família de ser sacrificada.
Muito se poderia dizer sobre o simbolismo que as crianças representam nos filmes de Mojica: o tema da eternidade enquanto continuidade sanguínea, como veículo para a perpetuação infinita do Mal pela perpetuação da linhagem do Zé do Caixão, eternização necessária para a construção de sua figura enquanto mítica. Mas em Exorcismo Negro, as coisas são um pouco diferentes: forma-se um vínculo entre Mojica e a personagem da criança porque é justamente ela que tem o faro apurado para a barbárie subjacente ao drama vivido pela família. Enquanto os outros personagens parecem navegar igual barata tonta, é a criança que, junto com Mojica, enxerga as cobras na árvore de Natal, que olha para os adultos com a suspeita de alguém que percebe algo a mais por trás de cada gesto e cada fala, ela que faz o tridente com as flores, ela que, mais do que qualquer outro, compreende o papel da morte na vida humana, depois da perda de seu cachorrinho.
Basta dizer que, diferentemente dos outros filmes, a criança não representa a continuidade do Mal (mesmo em outros filmes essa ideia é ambígua na medida em que o malvado Zé trata as crianças com carinho), mas a persistência do reconhecimento do Mal como forma de combate contra o Mal. Daí que o clímax não só do filme, mas também dessa reflexão de Mojica sobre si mesmo, sobre o mal e sobre seu próprio processo criativo enquanto artesão de cultura erguida sob a barbárie, envolve uma profunda dimensão ética. A resolução do combate entre Mojica e Zé envolve Mojica salvar a criança porque ao salvá-la, Mojica está salvando sua/nossa capacidade de reconhecer a barbárie nele mesmo/na cultura, e é por essa via do reconhecimento que torna-se possível qualquer combate contra a barbárie. Quando ignoramos o Mal que nos diz respeito, aí sim caímos nas garras do Zé do Caixão.
No final, a sombra do Zé continua pairando no filme, pairando no filme (
literalmente, no filme, o travelling sobre as janelas lembra muito o movimento da película), inclusive sobre a criança que testemunhou todo o horror (igual Mojica, igual nós). Mas se essa sombra traz consigo todas as trevas das masmorras da cultura, também se torna palpável quando é reconhecida enquanto tal.
Daí a natureza dialética do último plano (claramente inspirada em Repulsion de Polanski, mas muito, muuuuito mais rica e profunda): enquanto a família vibra exaltada, a garotinha foi traumatizada / enquanto a família vibra como se nada tivesse acontecido, a garotinha foi a única que entendeu o peso e o sentido dos acontecimentos.
Materialismo histórico dialético pro Walter Benjamim é literalmente isso.
Enfim, dos filmes do Mojica que vi, é também o mais cuidadoso na construção de sua encenação. Cada sombra, corte, ângulo, escolha de figurino, posição de ator, etc etc etc... comenta (e muito) sobre o filme, tornando-se essencial pra articulação de toda essa reflexão.
Rock porra