François François Truffaut chamou esse filme de Jules and Jim, mas, convenhamos, o título é quase um golpe de marketing. Porque, apesar de os nomes masculinos estamparem o cartaz, o filme pertence inteiramente a Catherine. Jeanne Moreau entra em cena e o resto do mundo; Jules, Jim, nós, e provavelmente o próprio Truffaut; passa a orbitar ao seu redor como satélites fascinados e um pouco apavorados.
O mais curioso é que Catherine é constantemente tratada por parte da crítica como se fosse uma espécie de força demoníaca enviada à Terra com a missão de destruir a paz dos homens europeus. “Manipuladora”, “torturadora”, “monstro”, “femme fatale”. Como se ela fosse uma Medusa de franja. E eu confesso que isso me pareceu um pouco cômico, porque Catherine não faz nada que o cinema e a literatura tenham perdoado nos homens por séculos. Ela deseja. Ela se entedia. Ela muda de ideia. Ela testa limites. Ela ama duas pessoas ao mesmo tempo. Ela quer liberdade. Ou seja, em outras palavras, Catherine se comporta exatamente como um homem.
E Truffaut deixa isso explícito logo no início, quando ela aparece com um bigode postiço, encarnando “Thomas”. Não é apenas uma brincadeira espirituosa; é praticamente uma chave de leitura. Catherine veste o figurino masculino porque entende, intuitivamente, que o papel do homem é o único que permite movimento. Quem é mais livre, naquela Europa pré-Primeira Guerra, do que um homem francês culto, boêmio e emocionalmente irresponsável? Para circular pelo mundo com a mesma autonomia de Jules e Jim, Catherine precisa literalmente se fantasiar de homem.
E há algo ainda mais interessante, e brilhante, nisso... depois da guerra, muitos homens do filme perdem seus bigodes. Catherine, por outro lado, continua sendo a personagem mais “masculina” da história, no sentido social do termo. Ela preserva o impulso de conquistar, experimentar e recusar estabilidade. Enquanto os homens envelhecem e se tornam mais domesticados, ela continua correndo na frente, (fazendo referência a cena da ponte, em que trapaceia para vencer e comemora com uma alegria quase infantil e ao mesmo tempo assustadora). A cena é um resumo perfeito da personagem, Catherine precisa ganhar, mas não porque seja maligna, e sim porque liberdade, para ela, nunca foi contemplativa; sempre foi um verbo de ação.
A ironia deliciosa é que Jim, no início, acha tudo isso irresistível. Catherine é apresentada como a encarnação daquela estátua com o sorriso enigmático, uma espécie de ideal feminino eterno e inalcançável. Jim se apaixona justamente porque ela é a namorada do amigo, porque ela é insinuante, porque ela parece imprevisível, porque ela escapa a qualquer definição. Enquanto Catherine é uma ideia, ela é perfeita. O problema começa quando ela deixa de ser fantasia e se torna realidade.
E Jim, que adorava a liberdade em tese, descobre que não gosta tanto dela na prática.
O filme repete mais de uma vez a noção de que, em um casal, ao menos um precisa ser fiel. Jim claramente não pretende ocupar esse cargo. Ele mantém Gilberte em banho-maria por anos, aparece e desaparece quando lhe convém, e a trata com a mesma ambivalência que depois atribui a Catherine. A diferença é que, quando um homem faz isso, chamamos de indecisão romântica; quando uma mulher faz, ela vira uma sociopata de vestido.
Jim quer Catherine como musa, não como ser. Ele ama sua liberdade até o momento em que essa liberdade não se organiza em torno dele. E, no instante em que percebe que Catherine não aceitará ser reduzida à função de estátua admirável, ele passa a vê-la como um problema a ser resolvido.
Jules, por outro lado, é o personagem mais generoso do filme e, na minha opinião, o mais profundo. Oskar Werner constrói um homem que entende que amar alguém não significa possuí-lo. Desde o começo, ele sabe que Catherine não é o “tipo de mulher” que se casa e tem filhos tranquilamente. E isso não o afasta; ao contrário, é precisamente o que o atrai.
Jules não é um capacho, como alguns insistem em dizer. Chamar Jules de “tonto” é uma leitura quase ofensiva. Ele enxerga a complexidade de Catherine e, em vez de tentar amputá-la para torná-la mais conveniente, decide conviver com ela. Isso exige uma força emocional absurda. Jules sofre, claro, mas continua agindo com compaixão. Ele acolhe os amantes de Catherine, aceita o caos e tenta preservar algo de belo no meio da desordem. Jules é o personagem que encarna a tolerância, respondendo à vida “em seus próprios termos”. Talvez seja por isso que Jim, no fundo, inveje Jules.
Jim tem o charme do homem moderno, mas não possui a maturidade emocional do amigo. Jules consegue amar sem dominar. Jim quer dominar sem admitir que deseja isso. Jules aceita a ambiguidade da vida; Jim continua esperando que o amor se organize de acordo com seu conforto. Catherine percebe essa diferença, e talvez seja por isso que, apesar de tudo, Jules permaneça como a única pessoa que realmente a compreende.
O final do filme é como uma explosão trágica inevitável, mas ele também carrega algo de profundamente irônico. Truffaut filma o acidente de maneira quase abrupta, sem a solenidade melodramática que esperaríamos, e depois nos confronta com a materialidade brutal da cremação. Essa alternância entre leveza e horror é uma das coisas mais frequentes do filme.
E o momento mais perturbador talvez seja justamente a passividade de Jim no carro. Pela primeira vez, ele não argumenta, não hesita, não recua. Apenas aceita. Como se, naquele instante, reconhecesse que jamais conseguirá alcançar a liberdade radical de Catherine, ou a serenidade compassiva de Jules. E, por um segundo, se deixasse levar por algo maior do que seu eterno cálculo emocional.
No fim, Catherine não é um demônio, nem uma santa, nem um manifesto ambulante. Ela é uma pessoa intensamente viva em um mundo que oferece pouquíssimo espaço para mulheres viverem com a mesma licença moral concedida aos homens. Se às vezes ela parece excessiva, é porque está tentando romper uma estrutura que não admite meios-termos. Quando a única alternativa à prisão é a performance, a liberdade inevitavelmente ganha contornos teatrais.
E talvez seja por isso que Jules and Jim continue tão moderno. O filme se recusa a moralizar. Não pergunta quem está certo ou errado. Não transforma ninguém em herói ou vilão. Ele apenas observa, com uma ternura devastadora, três pessoas tentando inventar uma forma de amar sem abrir mão de si mesmas.
Spoiler: não dá muito certo.
Mas que experiência absolutamente maravilhosa acompanhar esse fracasso.
Jules and Jim é um filme sobre o fato de que algumas pessoas entram em nossas vidas como uma promessa de liberdade. E, às vezes, o problema não é que elas sejam impossíveis de amar. O problema é que amá-las exige uma liberdade que nem todos conseguem sustentar. Catherine conseguiu. Jules quase conseguiu. Jim queria conseguir.
E é justamente por isso que ela ficará para sempre correndo alguns passos à frente dos dois, de bigode postiço, sorriso enigmático e uma vantagem impossível de recuperar.
François François Truffaut chamou esse filme de Jules and Jim, mas, convenhamos, o título é quase um golpe de marketing. Porque, apesar de os nomes masculinos estamparem o cartaz, o filme pertence inteiramente a Catherine. Jeanne Moreau entra em cena e o resto do mundo; Jules, Jim, nós, e provavelmente o próprio Truffaut; passa a orbitar ao seu redor como satélites fascinados e um pouco apavorados.
O mais curioso é que Catherine é constantemente tratada por parte da crítica como se fosse uma espécie de força demoníaca enviada à Terra com a missão de destruir a paz dos homens europeus. “Manipuladora”, “torturadora”, “monstro”, “femme fatale”. Como se ela fosse uma Medusa de franja. E eu confesso que isso me pareceu um pouco cômico, porque Catherine não faz nada que o cinema e a literatura tenham perdoado nos homens por séculos. Ela deseja. Ela se entedia. Ela muda de ideia. Ela testa limites. Ela ama duas pessoas ao mesmo tempo. Ela quer liberdade. Ou seja, em outras palavras, Catherine se comporta exatamente como um homem.
E Truffaut deixa isso explícito logo no início, quando ela aparece com um bigode postiço, encarnando “Thomas”. Não é apenas uma brincadeira espirituosa; é praticamente uma chave de leitura. Catherine veste o figurino masculino porque entende, intuitivamente, que o papel do homem é o único que permite movimento. Quem é mais livre, naquela Europa pré-Primeira Guerra, do que um homem francês culto, boêmio e emocionalmente irresponsável? Para circular pelo mundo com a mesma autonomia de Jules e Jim, Catherine precisa literalmente se fantasiar de homem.
E há algo ainda mais interessante, e brilhante, nisso... depois da guerra, muitos homens do filme perdem seus bigodes. Catherine, por outro lado, continua sendo a personagem mais “masculina” da história, no sentido social do termo. Ela preserva o impulso de conquistar, experimentar e recusar estabilidade. Enquanto os homens envelhecem e se tornam mais domesticados, ela continua correndo na frente, (fazendo referência a cena da ponte, em que trapaceia para vencer e comemora com uma alegria quase infantil e ao mesmo tempo assustadora). A cena é um resumo perfeito da personagem, Catherine precisa ganhar, mas não porque seja maligna, e sim porque liberdade, para ela, nunca foi contemplativa; sempre foi um verbo de ação.
A ironia deliciosa é que Jim, no início, acha tudo isso irresistível. Catherine é apresentada como a encarnação daquela estátua com o sorriso enigmático, uma espécie de ideal feminino eterno e inalcançável. Jim se apaixona justamente porque ela é a namorada do amigo, porque ela é insinuante, porque ela parece imprevisível, porque ela escapa a qualquer definição. Enquanto Catherine é uma ideia, ela é perfeita. O problema começa quando ela deixa de ser fantasia e se torna realidade.
E Jim, que adorava a liberdade em tese, descobre que não gosta tanto dela na prática.
O filme repete mais de uma vez a noção de que, em um casal, ao menos um precisa ser fiel. Jim claramente não pretende ocupar esse cargo. Ele mantém Gilberte em banho-maria por anos, aparece e desaparece quando lhe convém, e a trata com a mesma ambivalência que depois atribui a Catherine. A diferença é que, quando um homem faz isso, chamamos de indecisão romântica; quando uma mulher faz, ela vira uma sociopata de vestido.
Jim quer Catherine como musa, não como ser. Ele ama sua liberdade até o momento em que essa liberdade não se organiza em torno dele. E, no instante em que percebe que Catherine não aceitará ser reduzida à função de estátua admirável, ele passa a vê-la como um problema a ser resolvido.
Jules, por outro lado, é o personagem mais generoso do filme e, na minha opinião, o mais profundo. Oskar Werner constrói um homem que entende que amar alguém não significa possuí-lo. Desde o começo, ele sabe que Catherine não é o “tipo de mulher” que se casa e tem filhos tranquilamente. E isso não o afasta; ao contrário, é precisamente o que o atrai.
Jules não é um capacho, como alguns insistem em dizer. Chamar Jules de “tonto” é uma leitura quase ofensiva. Ele enxerga a complexidade de Catherine e, em vez de tentar amputá-la para torná-la mais conveniente, decide conviver com ela. Isso exige uma força emocional absurda. Jules sofre, claro, mas continua agindo com compaixão. Ele acolhe os amantes de Catherine, aceita o caos e tenta preservar algo de belo no meio da desordem. Jules é o personagem que encarna a tolerância, respondendo à vida “em seus próprios termos”. Talvez seja por isso que Jim, no fundo, inveje Jules.
Jim tem o charme do homem moderno, mas não possui a maturidade emocional do amigo. Jules consegue amar sem dominar. Jim quer dominar sem admitir que deseja isso. Jules aceita a ambiguidade da vida; Jim continua esperando que o amor se organize de acordo com seu conforto. Catherine percebe essa diferença, e talvez seja por isso que, apesar de tudo, Jules permaneça como a única pessoa que realmente a compreende.
O final do filme é como uma explosão trágica inevitável, mas ele também carrega algo de profundamente irônico. Truffaut filma o acidente de maneira quase abrupta, sem a solenidade melodramática que esperaríamos, e depois nos confronta com a materialidade brutal da cremação. Essa alternância entre leveza e horror é uma das coisas mais frequentes do filme.
E o momento mais perturbador talvez seja justamente a passividade de Jim no carro. Pela primeira vez, ele não argumenta, não hesita, não recua. Apenas aceita. Como se, naquele instante, reconhecesse que jamais conseguirá alcançar a liberdade radical de Catherine, ou a serenidade compassiva de Jules. E, por um segundo, se deixasse levar por algo maior do que seu eterno cálculo emocional.
No fim, Catherine não é um demônio, nem uma santa, nem um manifesto ambulante. Ela é uma pessoa intensamente viva em um mundo que oferece pouquíssimo espaço para mulheres viverem com a mesma licença moral concedida aos homens. Se às vezes ela parece excessiva, é porque está tentando romper uma estrutura que não admite meios-termos. Quando a única alternativa à prisão é a performance, a liberdade inevitavelmente ganha contornos teatrais.
E talvez seja por isso que Jules and Jim continue tão moderno. O filme se recusa a moralizar. Não pergunta quem está certo ou errado. Não transforma ninguém em herói ou vilão. Ele apenas observa, com uma ternura devastadora, três pessoas tentando inventar uma forma de amar sem abrir mão de si mesmas.
Spoiler: não dá muito certo.
Mas que experiência absolutamente maravilhosa acompanhar esse fracasso.
Jules and Jim é um filme sobre o fato de que algumas pessoas entram em nossas vidas como uma promessa de liberdade. E, às vezes, o problema não é que elas sejam impossíveis de amar. O problema é que amá-las exige uma liberdade que nem todos conseguem sustentar. Catherine conseguiu. Jules quase conseguiu. Jim queria conseguir.
E é justamente por isso que ela ficará para sempre correndo alguns passos à frente dos dois, de bigode postiço, sorriso enigmático e uma vantagem impossível de recuperar.