''Você agora é dos nossos, do universo dos fracassados, dos renegados, a morte dos alucinados, o desterro dos lúcidos, a tua falência é um estilhaço da civilização pós-moderna, vai Fausto, aproveite esse momento de revolta libertária e mergulhe de cabeça no limbo da sociedade, tem que dar razão a sua veia visionária, é da merda que nasce topeia, é dessa condição larvar que surgem os Deuses''
Digo com toda certeza que essa é a obra brasileira mais poética e surrealista que eu já tive a honra de assistir, simplesmente inacreditável como o Reichenbach conseguiu dar um clima diferente e se inspirando em um clássico, um Fausto moderno, surreal e urbano com um apreço por diálogos filosóficos que chega a arrepiar, o diretor não quis simplesmente seguir o que seria tradicional e simplório, ele decidiu por abordar de uma forma muito mais simbólica, cadenciada e extremamente intrínseca, somos jogados no inferno pessoal de Fausto e buscamos entender sobre o que se trata juntamente com o personagem, e é interessante vermos como todas as suas frustrações ou momentos que o mesmo considerou importante em sua vida se tornam de relevância aqui, com os únicos momentos de lucidez e realidade sendo justamente no início e no fim do filme, enquanto que toda a sua figura no restante do tempo é demonstrada de forma distante, frio, objetivo e sádico, com um toque muito perturbador que reflete os seus desejos mais reprimidos e que foram expostos após o seu declínio financeiro, o longa não se importar em nos explicar e inclusive sinto que ele mescla elementos presentes na vida real do protagonista com seu pesadelo pessoal, e gosto como o filme é relativamente simples de entender mas com uma presença de figuras que o tornam complexo, não é nada menos do que um homem que possa ter ''vendido'' a própria alma sendo uma metáfora sobre esquecimento, sobre se entregar a busca por prazer cíclica, abandonando qualquer ética existente e se rendendo a um flerte constante de auto destruição (''O que pretende fazer com essa arma?'' Estourar os miolos!''), ao que aparenta, nós estamos acompanhando um estágio final em que o protagonista se cansa do que ansiava ter, sexo, álcool e a violência urbana já não o satisfazem mais, é quase rotineiro, vazio, o propósito se perdeu, e com ele, a jornada se encerrou, e Fausto talvez estivesse ciente disso quando perseguia constantemente a figura da criança, a única ''saída'' viável desse inferno pessoal em que ele estava, perseguir a inocência até o Éden (ou o que ele achava ser o paraíso), gosto como as figuras femininas aqui refletem o protagonista, tão vazias quanto e oferecendo somente o prazer da constante promiscuidade, e a resposta de Fausto? a violência, dois dos vícios mais antigos da humanidade, ambas proporcionando prazer e poder a sua respectiva maneira, mas enfim, talvez o longa afaste um público mais leigo que não esteja acostumado com surrealismo e a linguagem poética envolvente da própria obra que serviu de inspiração, é uma releitura simbólica extremamente profunda e um orgulho do nosso país termos um filme tão potente como esse.
''Fuder, fuder, talvez gozar''
''Você agora é dos nossos, do universo dos fracassados, dos renegados, a morte dos alucinados, o desterro dos lúcidos, a tua falência é um estilhaço da civilização pós-moderna, vai Fausto, aproveite esse momento de revolta libertária e mergulhe de cabeça no limbo da sociedade, tem que dar razão a sua veia visionária, é da merda que nasce topeia, é dessa condição larvar que surgem os Deuses''
Digo com toda certeza que essa é a obra brasileira mais poética e surrealista que eu já tive a honra de assistir, simplesmente inacreditável como o Reichenbach conseguiu dar um clima diferente e se inspirando em um clássico, um Fausto moderno, surreal e urbano com um apreço por diálogos filosóficos que chega a arrepiar, o diretor não quis simplesmente seguir o que seria tradicional e simplório, ele decidiu por abordar de uma forma muito mais simbólica, cadenciada e extremamente intrínseca, somos jogados no inferno pessoal de Fausto e buscamos entender sobre o que se trata juntamente com o personagem, e é interessante vermos como todas as suas frustrações ou momentos que o mesmo considerou importante em sua vida se tornam de relevância aqui, com os únicos momentos de lucidez e realidade sendo justamente no início e no fim do filme, enquanto que toda a sua figura no restante do tempo é demonstrada de forma distante, frio, objetivo e sádico, com um toque muito perturbador que reflete os seus desejos mais reprimidos e que foram expostos após o seu declínio financeiro, o longa não se importar em nos explicar e inclusive sinto que ele mescla elementos presentes na vida real do protagonista com seu pesadelo pessoal, e gosto como o filme é relativamente simples de entender mas com uma presença de figuras que o tornam complexo, não é nada menos do que um homem que possa ter ''vendido'' a própria alma sendo uma metáfora sobre esquecimento, sobre se entregar a busca por prazer cíclica, abandonando qualquer ética existente e se rendendo a um flerte constante de auto destruição (''O que pretende fazer com essa arma?'' Estourar os miolos!''), ao que aparenta, nós estamos acompanhando um estágio final em que o protagonista se cansa do que ansiava ter, sexo, álcool e a violência urbana já não o satisfazem mais, é quase rotineiro, vazio, o propósito se perdeu, e com ele, a jornada se encerrou, e Fausto talvez estivesse ciente disso quando perseguia constantemente a figura da criança, a única ''saída'' viável desse inferno pessoal em que ele estava, perseguir a inocência até o Éden (ou o que ele achava ser o paraíso), gosto como as figuras femininas aqui refletem o protagonista, tão vazias quanto e oferecendo somente o prazer da constante promiscuidade, e a resposta de Fausto? a violência, dois dos vícios mais antigos da humanidade, ambas proporcionando prazer e poder a sua respectiva maneira, mas enfim, talvez o longa afaste um público mais leigo que não esteja acostumado com surrealismo e a linguagem poética envolvente da própria obra que serviu de inspiração, é uma releitura simbólica extremamente profunda e um orgulho do nosso país termos um filme tão potente como esse.
''Fuder, fuder, talvez gozar''