''Eu lhes peço que não chorem por Juliana, deveríamos celebrar, pois ela acaba de se casar com um amigo meu.''
Extremamente atual, em um mundo no qual o Estado, personificado pelo Príncipe Prospero, abandona sua população, sustenta uma estabilidade artificial e reforça, de forma constante, um desprezo estrutural, o que nos resta? O que pode o indivíduo diante de uma elite diabólica que não apenas se isola, mas também renega qualquer noção de moral transcendental?
A Obra desenvolve um retrato inegável desse desequilíbrio, de um lado, o poder que se enclausura em sua própria decadência, do outro, o povo reduzido a uma figura sacrificial, submetido a um sofrimento coletivo e silencioso diante de uma estrutura corrupta e sádica.
Nesse contraste, uma das representações mais incisivas do proletariado como vítima, não apenas da negligência, mas de um sistema que se sustenta justamente por essa indiferença, pelo desprezo absoluto.
No entanto, toda essa construção elitista demonstra, ao fim, uma ilusão, diante da morte, não há hierarquia que se sustente, o luxo, a estética e a arrogância tornam-se apenas variações inúteis de uma mesma condição inevitável.
Morrer não deixa de ser um ato universal, ainda que a elite insista em revesti-lo de aparência e espetáculo.