Caramba
Aprender a se ouvir falar para ver o que fazem os outros
Godard sempre foi um homem além de seu tempo, e ver todas as suas ideias que foram trabalhadas aqui nos mostra como tudo ainda tem uma conexão gigantesca com o que vivemos hoje em dia.
A primeira crítica perceptível desde o começo até o fim é a ideia de "mundos diferentes", países asiáticos em conflitos parecem ser demonstrados apenas como uma tragédia midiática, mas nunca tratada como algo real. Vemos nas televisões sempre coisas como crianças desnutridas, violência extrema, terrorismo, e tudo isso sempre é tratado como algo que parece não estar acontecendo de verdade porque ninguém fala sobre, e quando falam, é como se esivessem falando de um filme estilo Lista de Schindler.
Transformar guerras sociopolíticas em mídia é a ideia que Godard traz como negligência e invisibilidade que nós ocidentais temos. Para ele, tratamos o ocidente como o centro de nossas vidas, centralizamos isso, enquanto só ligamos para o oriente quando se trata de tragédias, realidades que não "temos" perto de nós. Não procuramos entender culturas e formas de viver, porque "não nos importa", só se vem a ser importante quando queremos saber de algo triste, a televisão transforma a tragédia em consumo e o espectador se acostuma à violência.
Nossa ignorância também aparece no momento em que mostrar imagens de sofrimento não garante consciência política. Vemos isso claramente hoje em dia, todo mundo vê o quanto Israel ataca a Palestina, e mesmo assim, pessoas de mentalidade limitada vem a dizer que são atacados porque querem, criaram uma forma de terrorismo porque quiseram, quando todos sabem que sempre foi uma enorme questão, desde 1946. Repetir pedidos de ajuda em forma de conflito se torna propagandaa vazia quando pessoas não se interessam em ajudar, apenas em julgar e serem espectadores desse grande "show".
Para finalizar, o próprio Godard se culpa, por trazer a visão da dor do outro, mesmo sabendo que ele tem voz própria para se pronunciar. Ele não quer ser o salvador da pátria, ele apenas faz o que todos deveriam fazer, se importar de verdade com essas causas em vez de ser um eterno telespectador desse enorme show de horrores que ninguém resolve, porque a sociedade tem a necessidade de ter algo pra negligenciar e falar sobre.