traumático e problemático....
A escola onde a narrativa se desenrola é mais do que cenário; é uma metáfora de um país fragmentado, uma Ucrânia entre o desejo europeu e o peso russo, entre a promessa de modernidade e o retorno à barbárie. Cada corredor é uma trincheira, cada quarto um território ocupado. O que deveria ser espaço de criação se torna máquina de destruição, e é nesse paradoxo que The Tribe encontra sua potência. A violência não é exceção; é a linguagem natural de uma sociedade que desaprendeu a escutar.
A câmera, imóvel, observa como quem se recusa a consolar. Há uma crueldade metódica nesse olhar fixo, que transforma o espectador em cúmplice do horror. Nos longos planos-sequência, a duração é uma forma de punição: o tempo não corre, apodrece. A famosa cena do aborto talvez seja o ponto de ruptura entre ética e estética, o instante em que o filme, ao buscar o choque, se deixa seduzir por ele. O gesto de mostrar o inominável se transforma em espetáculo, e o corpo feminino volta a ser o campo onde o cinema ensaia suas culpas. É difícil não sentir que, nesse momento, a radicalidade de The Tribe se converte em regressão.
Há, ainda, a figura de Sergey, que muitos leram como vítima de um mundo sem linguagem. Mas essa leitura é complacente. Sergey é menos um inocente do que um agente, alguém que replica a lógica de dominação que o cerca. Amar, aqui, é dominar. O suposto “romance” com Anya não é resistência, mas prolongamento da violência. Balázs via no gesto mudo a possibilidade de uma comunicação universal; em The Tribe, o gesto tornou-se ruído, expressão de um mundo sem transcendência.
Talvez por isso o filme fascine e incomode na mesma medida. É uma obra que quer nos devolver à pureza da imagem, mas o que encontramos é a sujeira do real. A câmera permanece calma enquanto tudo ao redor implode. Há beleza nesse contraste, mas também certo cálculo: a sensação de que a brutalidade se tornou estética, e a dor, uma coreografia. The Tribe quer ser um grito, mas às vezes soa como um espelho, e o que ele reflete é um cinema que ainda não sabe o que fazer com o próprio silêncio.
traumático e problemático....
A escola onde a narrativa se desenrola é mais do que cenário; é uma metáfora de um país fragmentado, uma Ucrânia entre o desejo europeu e o peso russo, entre a promessa de modernidade e o retorno à barbárie. Cada corredor é uma trincheira, cada quarto um território ocupado. O que deveria ser espaço de criação se torna máquina de destruição, e é nesse paradoxo que The Tribe encontra sua potência. A violência não é exceção; é a linguagem natural de uma sociedade que desaprendeu a escutar.
A câmera, imóvel, observa como quem se recusa a consolar. Há uma crueldade metódica nesse olhar fixo, que transforma o espectador em cúmplice do horror. Nos longos planos-sequência, a duração é uma forma de punição: o tempo não corre, apodrece. A famosa cena do aborto talvez seja o ponto de ruptura entre ética e estética, o instante em que o filme, ao buscar o choque, se deixa seduzir por ele. O gesto de mostrar o inominável se transforma em espetáculo, e o corpo feminino volta a ser o campo onde o cinema ensaia suas culpas. É difícil não sentir que, nesse momento, a radicalidade de The Tribe se converte em regressão.
Há, ainda, a figura de Sergey, que muitos leram como vítima de um mundo sem linguagem. Mas essa leitura é complacente. Sergey é menos um inocente do que um agente, alguém que replica a lógica de dominação que o cerca. Amar, aqui, é dominar. O suposto “romance” com Anya não é resistência, mas prolongamento da violência. Balázs via no gesto mudo a possibilidade de uma comunicação universal; em The Tribe, o gesto tornou-se ruído, expressão de um mundo sem transcendência.
Talvez por isso o filme fascine e incomode na mesma medida. É uma obra que quer nos devolver à pureza da imagem, mas o que encontramos é a sujeira do real. A câmera permanece calma enquanto tudo ao redor implode. Há beleza nesse contraste, mas também certo cálculo: a sensação de que a brutalidade se tornou estética, e a dor, uma coreografia. The Tribe quer ser um grito, mas às vezes soa como um espelho, e o que ele reflete é um cinema que ainda não sabe o que fazer com o próprio silêncio.