Ainda que hoje tenha a cara de um filme datado meio B, existe um nível de crueldade alto o bastante pra que seja impossível não levar alguma coisa a sério. Lembro de relatos de pessoas que riam durante a cena do detetive caindo das escadas em algumas exibições de Psicose, algo que uma sala de cinema nunca deixaria acontecer em certas cenas desse aqui.
Algo a se investigar: até que ponto essa força maléfica que fundamenta o personagem do Zé do Caixão não se sustenta sob a condição de conviver com sua contrapartida, alguma espécie de recusa, de hesitação? Tal qual Mojica em Exorcismo Negro parece ser possuído gradativamente pelo Zé do Caixão, aqui também é uma força que possui Zé (o homem) e o faz explodir em agressão.
Ainda não temos aquele Zé do Caixão mitificado como signo de puro horror dos outros filmes. Ainda se trata de um ser humano. O medo e o desamparo que vemos em Zé ("culpa" talvez seja exagerar demais) me lembrou a distinção entre Mojica e Zé em Exorcismo Negro: Mojica em negação gritando que Zé do Caixão não existe parece o Zé gritando pra si mesmo que assombração não existe. Mas se o personagem ainda não está mitificado (para nós, porque pros personagens da cidade, pintados como supersticiosos e incapazes de agir contra ele, com certeza já está), é só uma questão de tempo. Ainda seria preciso que a cisão entre o personagem humano Zé do Caixão e a força arrebatadora que o possui (duas unidades particulares desse primeiro filme) se materializem na distinção de outros filmes entre Mojica (o homem, autor que avalia sua criação de forma distanciada) e Zé do Caixão (o mito, a figura do horror no imaginário popular brasileiro do século passado).
Nas ficções da Grécia Antiga, o encontro dos deuses com o mundo humano ocorria quando algo do além possuía o herói trágico. Pathos que toma conta de sua alma (da alma de Zé nesse filme; da alma de Mojica em Exorcismo Negro), impelindo-o, como uma força mágica, ao excesso que irá mitificar seu nome, imortalizando-o (a obsessão de Zé com a continuidade do sangue tem tudo a ver com isso; imortalização da blasfêmia, do terror; não se trata para ele da imortalização do nome, mas do sangue).
Durante o dia, sabendo que eu ia rever o filme de noite, me veio Poe na cabeça. Me esqueci do quanto que o nome de Sade encaixa melhor. Não há outro personagem ou precedente na ficção que se assemelhe à Zé tanto quanto as figuras de Sade. Pathos sadeano. É nisso que consiste a sobrevivência do "Zé do Caixão", até hoje, como um nome que circula o imaginário popular para evocar o macabro. O relâmpago que fisgou Zé do Caixão não saiu do Olimpo, mas de alguma masmorra.
Um trecho de um livro sobre sadismo, onde a psicanalista relata os momentos de medo que sentiu após ter dito algo que incomodou um feminicída durante uma entrevista:
* Eu havia visado certo. Lamentei no instante. Tarde demais. Fiquei, num raio, diante da pulsão mortífera. Má surpresa ver-se, por inadvertência, diante do tigre que se encolhe para pular. Pior, falar com um homem cortês e atencioso, e ver de repente, surgido de uma palavra, o matador.
Olhar e rosto metamorfoseados . Despertado, suplantado pelo sopro e o impulso de uma irresistível pulsão. O que ele viu no meu olhar? O pavor, suponho. E, como vemos em marcha lenta o carro de que somos passageiros evitar o acidente com um brutal golpe de volante do condutor e afastar-se muito lentamente do obstáculo (o instantâneo do momento se estica ao infinito), eu o vi desviar lentamente o olhar e virar-se de lado para se recuperar. Ouvi, então, ressoar os batimentos acelerados de meu coração. *
"O instantâneo do momento se estica ao infinito" em cada cena de violência que parece suspender-se no tempo, isolar-se do resto, isolar-se do filme caricato para mergulhar num conjunto fechado de pavor e subjugação.
O filme é como se um personagem de Sade acabasse, no final, atormentado por assombrações de Poe. Mas são horrores diferentes, e até Poe surgir em cena ficamos junto ao monstro sadeano, muito mais grotesco. Filme de terror terror mesmo.