Tão carregado de contradições que qualquer conclusão sobre a articulação de seus elementos
(imagem + som / primeiro plano + fundo / atores de pé + ajoelhados / barulho + silêncio / luz + sombra / movimento + tempo estático / distância + proximidade / etc....)
se torna dúvida e incerteza. Como em Days of Wrath de Dreyer, o chacoalhar das árvores ao vento torna-se signo tanto da presença de Deus em cena quanto reflexo secular da tonalidade afetiva da cena. Não importa se é um ou outro, o que importa é que ambos possam coexistir.
Mas será que não importa mesmo? Afinal, existe uma dicotomia que perpassa o filme inteiro sem ambiguidade: a da liberdade e da submissão. Desde o início, o que se impõe à protagonista é a coerção. É diante desse fato que a mera coexistência antagônica entre espiritualidade e secularismo em cena torna-se amarga. Por quê?
O filme carrega consigo essa contradição inquietante da mesma forma que a protagonista. Sua vocação para a vida religiosa vem justamente da sua recusa e de sua vontade de viver a vida mundana. Mas será que ela quer mesmo viver essa vida mundana? Ou será que ela teria mesmo tanta vocação assim, se acaba cometendo o que seja, talvez, o único pecado totalmente imperdoável?
Se questões como essa perturbam a reflexão sobre o filme, a própria presença e a postura da protagonista perturba outros personagens porque, diante dela, também esses personagens afundam na angústia de suas próprias contradições (da fé, do desejo, da culpa, do caráter, etc...). A violência sofrida pela protagonista nada mais é do que a resposta desses personagens diante de suas próprias dúvidas, o que apenas aprofunda ainda mais seus antagonismos os quais, vale lembrar, a protagonista não tem nenhuma culpa (a não ser resistir).
A coexistência entre secularismo e espiritualidade nesse filme se torna amarga porque ela se concretiza em subjugação. É isso que faz com que cada jogo, cada articulação entre os elementos fílmicos, desde as badaladas de um sino até os olhares sutis de uma atriz no escanteio do quadro, traga consigo, ancorada nessa dialética, o espectro da injustiça e do seu mal-estar.
A maior das violências cometidas contra ela foi de retirarem-lhe a capacidade de reconhecer sua própria força e o poder de sua resiliência. Não há martírio que não seja um último respiro de autonomia, mas só porque esta já se perdeu.
Teria que confirmar se de fato várias cenas foram filmadas com teleobjetivas, mas me pareceu que sim. Enquadramentos angulados de espaços amplos e vastos, mas chapados como que em direção à uma imagem bidimensional. É o retrato perfeito dessas dicotomias reduzidas à uma planificação cujo efeito é a subjugação. Das imagens que mais resumem o filme:
https://sun9-34.userapi.com/c847018/v847018893/1e384f/gK9-ugzvs8A.jpg
Filme sinistro O.o
Tão carregado de contradições que qualquer conclusão sobre a articulação de seus elementos
(imagem + som / primeiro plano + fundo / atores de pé + ajoelhados / barulho + silêncio / luz + sombra / movimento + tempo estático / distância + proximidade / etc....)
se torna dúvida e incerteza. Como em Days of Wrath de Dreyer, o chacoalhar das árvores ao vento torna-se signo tanto da presença de Deus em cena quanto reflexo secular da tonalidade afetiva da cena. Não importa se é um ou outro, o que importa é que ambos possam coexistir.
Mas será que não importa mesmo? Afinal, existe uma dicotomia que perpassa o filme inteiro sem ambiguidade: a da liberdade e da submissão. Desde o início, o que se impõe à protagonista é a coerção. É diante desse fato que a mera coexistência antagônica entre espiritualidade e secularismo em cena torna-se amarga. Por quê?
O filme carrega consigo essa contradição inquietante da mesma forma que a protagonista. Sua vocação para a vida religiosa vem justamente da sua recusa e de sua vontade de viver a vida mundana. Mas será que ela quer mesmo viver essa vida mundana? Ou será que ela teria mesmo tanta vocação assim, se acaba cometendo o que seja, talvez, o único pecado totalmente imperdoável?
Se questões como essa perturbam a reflexão sobre o filme, a própria presença e a postura da protagonista perturba outros personagens porque, diante dela, também esses personagens afundam na angústia de suas próprias contradições (da fé, do desejo, da culpa, do caráter, etc...). A violência sofrida pela protagonista nada mais é do que a resposta desses personagens diante de suas próprias dúvidas, o que apenas aprofunda ainda mais seus antagonismos os quais, vale lembrar, a protagonista não tem nenhuma culpa (a não ser resistir).
A coexistência entre secularismo e espiritualidade nesse filme se torna amarga porque ela se concretiza em subjugação. É isso que faz com que cada jogo, cada articulação entre os elementos fílmicos, desde as badaladas de um sino até os olhares sutis de uma atriz no escanteio do quadro, traga consigo, ancorada nessa dialética, o espectro da injustiça e do seu mal-estar.
A maior das violências cometidas contra ela foi de retirarem-lhe a capacidade de reconhecer sua própria força e o poder de sua resiliência. Não há martírio que não seja um último respiro de autonomia, mas só porque esta já se perdeu.
Teria que confirmar se de fato várias cenas foram filmadas com teleobjetivas, mas me pareceu que sim. Enquadramentos angulados de espaços amplos e vastos, mas chapados como que em direção à uma imagem bidimensional. É o retrato perfeito dessas dicotomias reduzidas à uma planificação cujo efeito é a subjugação. Das imagens que mais resumem o filme:
https://sun9-34.userapi.com/c847018/v847018893/1e384f/gK9-ugzvs8A.jpg
Filme sinistro O.o