Filmaralhaço!
Interpretação brilhante da Maria Ribeiro. Se existem críticas de um texto inverossímil e exageradamente histriônico, teatral, elogio os temas aqui trazidos pela Laís Bodanzky, diretora e co-roteirista de Como Nossos Pais.
Do oculto trabalho doméstico feminino para alumbrar a virtuosa e empenhada masculinidade profissional até o cinismo de algumas dinâmicas entre mãe e filha, o filme costura ao longo de seus 136 minutos a mãe, filha e esposa Rosa, de uma complexidade atroz.
Mas a começar pelo casamento, um retrato convencional e bem estabelecido: a ruína de uma típica família de classe média brasileira que, por uma via, possui uma mulher de meia-idade com seus anseios e vivências, mas completamente impossibilitada de exercer qualquer prazer (inclusive sexual) para dar lugar aos afazeres domésticos cabíveis de duas filhas menores, mas pela outra, possui um homem de uma transigência cínica, embora empenhado profundamente nas suas crenças, suas causas.
Nos afazeres de Dado (Paulo Vilhena), o homem, o espaço e empenho destinados ao trabalho era tanto que não restava quase nada às sutilezas do lar. Embora flexível, restava à mulher Rosa (Maria Ribeiro) as pequenices das necessidades de uma casa, como se fosse um dom particular dela, que reconhece autocriticamente, entretanto, que não dá conta de tudo.
E esse transbordamento é explicitado em diversas ocasiões ao longo do filme. Verbais ou não verbais, as cenas são habilidosamente cirúrgicas em mostrar o descolamento do esposo em relação à realidade vivida pela protagonista de *Como Nossos Pais.
*
Já tratando de Clarice (Clarisse Abujamra), a mãe de Rosa, uma ironia bem planejada pela escrita de Bodanzky e Luiz Bolognesi: se Rosa possui chateações com o jeito que Dado permeia o imaginário de pai empenhado (a cena da louça e observação da própria personagem de exemplo), ela ironicamente na mesma sequência coloca o próprio pai nesta mesma caixa.
Mais tarde, conversando com Clarice sobre a chatice dos maneirismos de uma infância tardia da neta da personagem interpretada por Abujamra, ouve:
“É assim mesmo, chega um determinado momento que a definição de mãe no dicionário é aquela que não sabe nada.”
Os erros de Clarice ao longo do filme são vários, do rebaixamento da filha para bajular o genro até o conflito sobre a figura paterna de Rosa, mas nos convidam a simbolicamente relembrarmos que “apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.”
Como sua mãe, Rosa busca entre erros e acertos nesse emaranhado confuso que são as aparências entender os conflitos necessários de serem resolvidos e que nebulosamente a impede de enxergar aquilo que lhe oxigena, como um gás tóxico mesmo.
No desfecho, os conflitos em grande parte não são resolvidos. Embora eu entenda esse pé no chão de que “nem sempre os conflitos das nossas vidas são resolvidos”, acho que foi uma justificativa medíocre para a grandeza temática de Como Nossos Pais.
No fim, o longa se torna um excelente observatório sobre as violências de gênero marginalizadas nas aparências, encarnadas desde uma média salarial desigual até um comentário de almoço da nossa mãe. É o que é.
Filmaralhaço!
Interpretação brilhante da Maria Ribeiro. Se existem críticas de um texto inverossímil e exageradamente histriônico, teatral, elogio os temas aqui trazidos pela Laís Bodanzky, diretora e co-roteirista de Como Nossos Pais.
Do oculto trabalho doméstico feminino para alumbrar a virtuosa e empenhada masculinidade profissional até o cinismo de algumas dinâmicas entre mãe e filha, o filme costura ao longo de seus 136 minutos a mãe, filha e esposa Rosa, de uma complexidade atroz.
Mas a começar pelo casamento, um retrato convencional e bem estabelecido: a ruína de uma típica família de classe média brasileira que, por uma via, possui uma mulher de meia-idade com seus anseios e vivências, mas completamente impossibilitada de exercer qualquer prazer (inclusive sexual) para dar lugar aos afazeres domésticos cabíveis de duas filhas menores, mas pela outra, possui um homem de uma transigência cínica, embora empenhado profundamente nas suas crenças, suas causas.
Nos afazeres de Dado (Paulo Vilhena), o homem, o espaço e empenho destinados ao trabalho era tanto que não restava quase nada às sutilezas do lar. Embora flexível, restava à mulher Rosa (Maria Ribeiro) as pequenices das necessidades de uma casa, como se fosse um dom particular dela, que reconhece autocriticamente, entretanto, que não dá conta de tudo.
E esse transbordamento é explicitado em diversas ocasiões ao longo do filme. Verbais ou não verbais, as cenas são habilidosamente cirúrgicas em mostrar o descolamento do esposo em relação à realidade vivida pela protagonista de *Como Nossos Pais.
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Já tratando de Clarice (Clarisse Abujamra), a mãe de Rosa, uma ironia bem planejada pela escrita de Bodanzky e Luiz Bolognesi: se Rosa possui chateações com o jeito que Dado permeia o imaginário de pai empenhado (a cena da louça e observação da própria personagem de exemplo), ela ironicamente na mesma sequência coloca o próprio pai nesta mesma caixa.
Mais tarde, conversando com Clarice sobre a chatice dos maneirismos de uma infância tardia da neta da personagem interpretada por Abujamra, ouve:
“É assim mesmo, chega um determinado momento que a definição de mãe no dicionário é aquela que não sabe nada.”
Os erros de Clarice ao longo do filme são vários, do rebaixamento da filha para bajular o genro até o conflito sobre a figura paterna de Rosa, mas nos convidam a simbolicamente relembrarmos que “apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.”
Como sua mãe, Rosa busca entre erros e acertos nesse emaranhado confuso que são as aparências entender os conflitos necessários de serem resolvidos e que nebulosamente a impede de enxergar aquilo que lhe oxigena, como um gás tóxico mesmo.
No desfecho, os conflitos em grande parte não são resolvidos. Embora eu entenda esse pé no chão de que “nem sempre os conflitos das nossas vidas são resolvidos”, acho que foi uma justificativa medíocre para a grandeza temática de Como Nossos Pais.
No fim, o longa se torna um excelente observatório sobre as violências de gênero marginalizadas nas aparências, encarnadas desde uma média salarial desigual até um comentário de almoço da nossa mãe. É o que é.