*Não é nada fácil falar de BOUDU QUERIDO. Não é nada fácil falar de Boudu, querida.
Este filme é o exacto contrário do que aparenta ser e, dentro desse tão severo gosto pelo discrição que comummente designamos por pudor, estamos colocados diante do verso radioso de um simulacro que, em "fériee" e artíficio, prodigiosamente nos oculta a sua verdadeira, nocturna densidade.
Sempre me escapei, digo eum e quem assim diz outra coisa não quer dizer que, com esta idade, nunca falei de um grande filme, educado que fui no respeito e veneração por eles. Há, confesso, um tolhimento, a pele que se me encarquilha, o timorato temor do atrevimento.
Os grandes filmes são para estudar devagarinho, com o correr dos anos. Pergunta-se: então, meu filho, porque aceitaste a encomenda, porque oficias e te arreganhas na escribunção? Ora, não se sabe, então, da regularidade com que mãos bem mais levianas e lestas ousam desabotoar as roupagens de certos filmes? Filmes são películas velhas onde todo o priapismo não é energia que entontece, mas comércio que avilta e desgasta.
O que é que queriam que eu fizesse? Que pegasse no clochard e o levasse para casa para assustar minha noiva? Que debitasse todos os lugares-comuns que aprendi sobre Renoir, desde a liberdade à pequenina folga no enquadramento, tão necessária para que seres e coisas posam estar à vontade, respirar fundo?
BOUDU é a arte da variação, um riquíssimo percurso de registos constantemente desfeitos pela introdução, no seu próprio seio, de um movimento contrário ao que dir-se-ia ser o seu curso natural. Equivale isto a dizer que a sua estrutura assenta num jogo de inversões e contradições que provocam uma permanente deslocação e oscilação da ordem das coisas, da própria ordenação do filme, cujo equilíbrio clássico é, desde o início ameaçado pela turbulência de sua própria necessidade de fluidez.
Repara-se, por exemplo, que o primeiro plano do filme é um plano de água atravessada por levíssimos raios de luz, ao qual se sobrepõem as letras do título (BOUDU SAUVÉ DES EAUX) e que a ligação, assaz surpreendente, é feita para um palco nitidamente teatral onde vemos um fauno um tanto decrépito a perseguir uma ninfa, ou seja: o livreiro cheio das virtudes burguesas que Renoir tão bem pinta persegue a apetitosa criadinha, num mundo que é o do desejo, e outro não é senão lembrança do mundo antigo, o mundo morto de Pã. O que é particularmente fabuloso é que Renoir (e esta ideia desenvolver-se-á ao longo de todo o filme) se serva da impostura teatral, tanto do "décor"como do actor, para nos dar o mundo natural e vice-versa, com todas as cambiantes que este "vice-versa" contém no filme, nomeadamente nos planos de rua com captação de ruídos em directo. Mas se a Lestingois, o livreiro, é ainda possível identificar-se crepuscularmente com a divindade, na projeção do seu sonho, não esqueçamos que ele próprio faz oscilar esse edifício, ao encostar-se, quiçá para retemperar fôlego e ânimos, aum dos pilares que o sustenta. É claro que rimos. Renoir tem o dom de nos fazer participar alegremente na mais horrível das tragédias - a da mediocridade dos dias.
E Boudu? Boudu é uma figura das águas, não tem ligação com a nossa história.
Esquecemos agora o nome dos rios*
João César Monteiro
em Cinéfilo n19, 9 de fevereiro de 1974
Salve pro Sérgio Alpendre por ter me mostrado esse texto.
*Não é nada fácil falar de BOUDU QUERIDO. Não é nada fácil falar de Boudu, querida.
Este filme é o exacto contrário do que aparenta ser e, dentro desse tão severo gosto pelo discrição que comummente designamos por pudor, estamos colocados diante do verso radioso de um simulacro que, em "fériee" e artíficio, prodigiosamente nos oculta a sua verdadeira, nocturna densidade.
Sempre me escapei, digo eum e quem assim diz outra coisa não quer dizer que, com esta idade, nunca falei de um grande filme, educado que fui no respeito e veneração por eles. Há, confesso, um tolhimento, a pele que se me encarquilha, o timorato temor do atrevimento.
Os grandes filmes são para estudar devagarinho, com o correr dos anos. Pergunta-se: então, meu filho, porque aceitaste a encomenda, porque oficias e te arreganhas na escribunção? Ora, não se sabe, então, da regularidade com que mãos bem mais levianas e lestas ousam desabotoar as roupagens de certos filmes? Filmes são películas velhas onde todo o priapismo não é energia que entontece, mas comércio que avilta e desgasta.
O que é que queriam que eu fizesse? Que pegasse no clochard e o levasse para casa para assustar minha noiva? Que debitasse todos os lugares-comuns que aprendi sobre Renoir, desde a liberdade à pequenina folga no enquadramento, tão necessária para que seres e coisas posam estar à vontade, respirar fundo?
BOUDU é a arte da variação, um riquíssimo percurso de registos constantemente desfeitos pela introdução, no seu próprio seio, de um movimento contrário ao que dir-se-ia ser o seu curso natural. Equivale isto a dizer que a sua estrutura assenta num jogo de inversões e contradições que provocam uma permanente deslocação e oscilação da ordem das coisas, da própria ordenação do filme, cujo equilíbrio clássico é, desde o início ameaçado pela turbulência de sua própria necessidade de fluidez.
Repara-se, por exemplo, que o primeiro plano do filme é um plano de água atravessada por levíssimos raios de luz, ao qual se sobrepõem as letras do título (BOUDU SAUVÉ DES EAUX) e que a ligação, assaz surpreendente, é feita para um palco nitidamente teatral onde vemos um fauno um tanto decrépito a perseguir uma ninfa, ou seja: o livreiro cheio das virtudes burguesas que Renoir tão bem pinta persegue a apetitosa criadinha, num mundo que é o do desejo, e outro não é senão lembrança do mundo antigo, o mundo morto de Pã. O que é particularmente fabuloso é que Renoir (e esta ideia desenvolver-se-á ao longo de todo o filme) se serva da impostura teatral, tanto do "décor"como do actor, para nos dar o mundo natural e vice-versa, com todas as cambiantes que este "vice-versa" contém no filme, nomeadamente nos planos de rua com captação de ruídos em directo. Mas se a Lestingois, o livreiro, é ainda possível identificar-se crepuscularmente com a divindade, na projeção do seu sonho, não esqueçamos que ele próprio faz oscilar esse edifício, ao encostar-se, quiçá para retemperar fôlego e ânimos, aum dos pilares que o sustenta. É claro que rimos. Renoir tem o dom de nos fazer participar alegremente na mais horrível das tragédias - a da mediocridade dos dias.
E Boudu? Boudu é uma figura das águas, não tem ligação com a nossa história.
Esquecemos agora o nome dos rios*
João César Monteiro
em Cinéfilo n19, 9 de fevereiro de 1974
Salve pro Sérgio Alpendre por ter me mostrado esse texto.