Everyone must know their place. The police repress, the judiciary punishes and the press makes people think the way we want them to. After all, everyone is doing their duty. Only the workers won't play along.O quão alarmante é o fato de um filme de 1972 continuar dolorosamente atual? Principalmente na era em que vivemos, recheada de fake news e mídias polarizadas. Ao menos na década de 70, a imprensa fingia ser neutra.
Ter feito esse filme nos anos 70 na Itália deve ter sido o equivalente a lançar um filme criticando a ditadura militar no Brasil dos anos 60. Uma história mostrando a polarização da mídia e o jornalismo como um trabalho antiético e cúmplice do poder estatal? Marco Bellocchio colocou o pau na mesa e mandou medir.
Um filme muito bem feito mesmo. Desde o primeiro minuto eu fiquei intrigada com a história, e o desenrolar dela foi incrível. Mesmo sendo um filme relativamente curto, conseguiu construir uma mensagem válida e atemporal com maestria.
Os aspectos técnicos que mais chamam atenção com certeza são a fotografia muitíssimo charmosa e a atuação estupidamente incrível do Gian Maria Volonté. É muito difícil ser fã dele porque eu fico extremamente dividida entre prestar atenção na carga política das obras e no enorme tesão que eu sinto por esse homem 😓
A frieza e o estranho charme do Bizanti são características muito claras do quão insensível e egoísta você tem que ser pra crescer no jornalismo de mídias tradicionais “neutras”, que possuem uma artimanha meticulosa pra fazer com que o “cidadão comum” pense da forma como eles querem.
E isso resulta numa alienação bem realista de pessoas que só veem um lado das histórias, algo muito real hoje, com estudos provando que as redes sociais são propensas a sempre e unicamente mostrar conteúdos do lado político que o usuário faz parte. Talvez o Facebook e o Il Giornale não sejam tão diferentes...
Uma coisa que me chamou muita atenção foi o fato de a maioria dos personagens homens não enxergarem mulheres como pessoas com ideias e pensamentos. O Bizanti faz isso com a esposa e com a Rita Zigai, e o zelador faz isso com a Maria Grazia. Ao vê-las apenas como “ideais femininos”, não se atentam que os verdadeiros monstros são eles, o Bizanti ao indiretamente prender um inocente, e o zelador ao estuprar e matar uma jovem.
No fim, toda a culpa é jogada num garoto pobre e esquerdista e, de certa forma, no “fantasma do comunismo” que assombrou a Itália por tantos anos, apenas pra chocar a população e fazer uma propaganda política imperceptível para o “cidadão comum”. Também sobra para o único jornalista que tentou ser honesto e acabou sendo demitido. A mídia não precisa falar a verdade quando uma mentira é tão bem construída em benefício próprio.
Por fim, esse filme, We Still Kill the Old Way (1967) e Nightcrawler (2014) são semelhantes em mostrar a manipulação da verdade e a fabricação de notícias em prol de uma agenda política específica, desde a década de 60 até os dias de hoje. O que será que é preciso pra mudar isso? 🤔 Eu chuto que a resposta começa com uma foice e um martelo...
Num geral, um ótimo filme mesmo, com certeza um dos meus favoritos do Gian e do movimento de cinema político italiano!